Somos professores ou arqueólogos de Mindfulness e Compaixão?

É sabido que Mindfulness (ou atenção plena, consciência plena) e Compaixão são características humanas, traços psicológicos, ou seja, estão presentes em nosso funcionamento psicológico desde o nosso nascimento. Bishop1 propõe um modelo de Mindfulness que leva em conta dois componentes: 1) regulação da atenção (experiência direta – reconhecimento dos eventos no momento presente – corporais, sensoriais e mentais), 2) uma orientação de curiosidade, abertura e aceitação para suas experiências.

Já compaixão pode ser compreendida, de acordo com Feldman e Kuyken2, como um processo cognitivo, afetivo e comportamental que consiste nos seguintes cinco elementos que se referem, ambos, a compaixão para com os outros e para consigo mesmo: (1) reconhecimento do sofrimento; (2) compreensão da universalidade do sofrimento na experiência humana; (3) sentimento de empatia pela pessoa que sofre e conexão com a angústia (ressonância emocional); (4) tolerância aos sentimentos de incômodo despertados em resposta à pessoa que sofre, permanecendo assim aberto e aceitando a pessoa que sofre; e (5) motivação para agir para aliviar o sofrimento.

Se a nossa capacidade de consciência plena e compaixão fazem parte da nossa natureza humana, como será que eles se manifestam na infância?

Ainda que pouco estudada, a capacidade de estar mindful no dia a dia (dispositional mindfulness) é algo que as crianças adquirem naturalmente, ao longo do seu desenvolvimento. Aos 4/5 anos de idade, essa capacidade já está plenamente desenvolvida, tendo seguido caminhos parecidos aos do desenvolvimento cognitivo como postulado por Piaget. A capacidade de estar consciente (awareness) é desenvolvida ao longo do primeiro ano de vida e aos 4/5 anos a criança começa a demonstrar a capacidade de uma autoconsciência metacognitiva (ou seja, estar consciente dos próprios pensamentos), a habilidade de representações mentais e já pode ter múltiplas perspectivas dos outros e dos objetos. Importante ressaltar que, assim como outros aspectos do desenvolvimento humano, o desenvolvimento da capacidade para estar mindful é dependente das experiências do indivíduo. Assim, medo crônico, ameaças, controle externo excessivo, experiências tão comuns para as crianças atualmente, podem dificultar o desenvolvimento da capacidade de estar mindful3.

A capacidade para o controle voluntário da atenção emerge ao final do primeiro ano de vida e continua a se desenvolver ao longo dos anos pré-escolares e escolares e é influenciada por fatores como temperamento, afetividade, reatividade aos estímulos, respostas aos cuidadores e cognição, todos esses fatores exercendo um papel no desenvolvimento do mindfulness3.

Não são poucos os exemplos de crianças pequenas demonstrando habilidades para estar no presente e completamente engajadas com a atividade que estão fazendo no momento: elas intencionalmente exploram a tigela de comida com suas próprias mãos, brincam com suas bonecas, intencionalmente constroem seus próprios brinquedos, com curiosidade, abertura e a tão famosa mente de principiante quando falamos em mindfulness. Essa capacidade de estar totalmente engajadas com o momento presente e com as experiências sensoriais parece já estar presente em uma idade bem precoce. Uma questão-chave é quando e como os julgamentos e as avaliações se tornam uma característica dominante da experiência das crianças e como o processo muda de estar totalmente presente com a experiência, para pensar sobre sua experiência3.

Um pensamento rousseauniano é de que o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe. É o que parece demonstrar as pesquisas sobre altruísmo em crianças muito pequenas. Entende-se como altruísmo uma motivação cuja finalidade última é aumentar o bem-estar do outro, e os elementos de compaixão descritos acima estão envolvidos nesse processo. Segundo o psicólogo Michael Tomasello, responsável por uma importante pesquisa sobre altruísmo em crianças muito pequenas, os comportamentos de cooperação e de ajuda desinteressada se manifestam de modo espontâneo nas crianças em um período precoce do seu desenvolvimento, entre 14 e 16 meses, muito antes que os pais tenham ensinado aos filhos regras de sociabilidade e também não são determinados por uma pressão externa. Esses comportamentos podem ser observados na mesma idade em diferentes culturas, ou seja, são produto de uma inclinação natural e não de aspectos da cultura ou pressão dos pais. Existem evidências desses comportamentos nos primatas superiores, o que faz pensar que os comportamentos de cooperação altruísta não surgem no ser humano, mas já estavam presentes no ancestral comum aos humanos e chimpanzés há uns seis milhões de anos e que nossa solicitude em relação aos nossos semelhantes está profundamente ancorada em nossa natureza4.

 

Steven Mithen, em seu livro A pré-História da Mente (Editora Unesp, 2002)5, faz uma incrível reconstituição de como a nossa mente teria se desenvolvido ao longo da história de nossos ancestrais até a nossa espécie, mesmo que os vestígios deixados por nossos ancestrais tenham sido “apenas” pedras, restos de alimentos, artefatos domésticos, ossos e pinturas. Um dos fundamentos da reconstituição empreendida por Mithen é o princípio da recapitulação, segundo o qual a ontogenia (desenvolvimento do indivíduo, desde a concepção até o final da vida, a velhice) recapitula a filogenia (história da evolução humana), postulando o autor que se podem vislumbrar nas etapas de desenvolvimento mental da criança as fases da evolução cognitiva dos nossos ancestrais.

Levando em conta o princípio da recapitulação, será que as características de Mindfulness e Compaixão faziam parte da vida dos nossos ancestrais? A resposta é sim.

Os primeiros humanos, na sua busca pela alimentação, recebiam um rápido feedback pelos seus esforços em conseguir alimento. Caso não obtivessem sucesso em suas buscas ou caça, havia tempo de novas tentativas. Essa imediaticidade fazia com que nossos antepassados mantivessem um foco extremo de atenção no momento presente. Portanto, ter o foco no momento presente era imprescindível para a sobrevivência, fato que ajudou a fomentar o mindfulness durante a evolução da nossa espécie6.

Quanto à compaixão, ela tem permitido, por milhões de anos, que as pessoas cresçam e sobrevivam. A cooperação entre os membros de uma tribo aumentava a chance de que a descendência alcançasse a idade reprodutiva, melhorava a sobrevivência do grupo diante da ameaça externa e era um fator-chave na seleção do companheiro. O sistema de preservação da espécie promove a consciência de interconexão com os outros, baseada em respostas compassivas e comprometimento emocional com os outros, que é em parte responsável pelo sucesso de nossa espécie.  Assim, quando cultivamos compaixão, estamos apenas fortalecendo as tendências de cuidado que já existem em nossa espécie a milhões de anos7.

“Se quiserem conhecer a mente, não procurem apenas psicólogos e filósofos: certifiquem-se de também procurar um arqueólogo”  Steven Mithen

Arqueologia é a ciência que estuda vestígios materiais da presença humana, sejam estes vestígios antigos ou recentes, com o objetivo de compreender mais sobre os diversos aspectos da humanidade. Então, por que não nos considerarmos arqueólogos de Mindfulness e Compaixão? As técnicas (meditações) que ensinamos aos nossos alunos não poderiam ser comparadas às técnicas utilizadas na arqueologia?

Assim como a arqueologia pretende recuperar vestígios materiais da presença humana em sítios arqueológicos, nós que ensinamos mindfulness e compaixão também pretendemos recuperar essas características humanas, que se tornaram tão pouco presentes em nossa sociedade competitiva, voltada para a aquisição e conquistas, com pessoas muito amedrontadas e, principalmente, desconectadas de outros seres humanos. Nós ensinamos as técnicas para que a pessoa reencontre a sua natureza básica, as características com as quais foi dotada ao seu nascimento, herança de milhões de anos de evolução da sua espécie. O instrutor de Mindfulness e compaixão é, de fato, um arqueólogo da mente e do coração.

Finalizo esse texto com um trecho do livro “Wherever you go, There you are”, de Jon Kabat-Zinn8, com o qual finalizo os grupos de mindfulness que conduzo. Como costumo dizer nos grupos que nós instrutores somos lanternas, que colocam a luz no que já está ali, presente e que pode ser desenvolvido, potencializado para que nós seres humanos possamos FLORESCER.

” O propósito da redução de estresse baseado na atenção plena – e, na realidade, a promoção da saúde em seu sentido mais amplo – é desafiar e animar as pessoas a assumir sua própria autoridade, a serem mais responsáveis pelas suas vidas, seus corpos e sua saúde. Gosto de enfatizar que toda pessoa é uma autoridade mundial de si mesma, ou pelo menos poderia ser se começasse a observar as coisas com atenção plena. Grande parte da informação que cada um de nós necessita para aprender sobre nós mesmos e nossa saúde – informação que necessitamos desesperadamente para crescer, nos curar e tomar melhores decisões na vida – já está ao nosso alcance, já a temos diante de nossos narizes.”

Autora: Erika Leonardo de Souza

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  1. Bishop SR, Lau M, Shapiro S, Carlson L, Anderson ND, Carmody J, et al. Mindfulness: A Proposed Operational Definition. Clinical Psychology: Science and Practice. 2004;11(3):230-41.
  2. Feldman C, Kuyken W. Compassion in the lanscape of suffering. Contemporary Buddhism. 2011; 12(1):143-155.
  3. Burke C. An Exploration of the Effects of Mindfulness Training and Practice in association with Enhanced Wellbeing for Children and Adolescents: Theory, Research, and Practice. In: Huppert FA, Cooper CL. Wellbeing: A Complete Reference Guide, Volume VI, Interventions and Policies to Enhance Wellbeing. Oxford, John Wiley & Sons Ltd, 2014.
  1. Ricard M. A revolução do altruísmo. São Paulo, Palas Athena, 2015.
  1. Mithen S. A pré-história da mente: uma busca das origens da arte, religião e ciência. São Paulo, Editora Unesp, 2002.
  2. Le A, Ngnoumen CT, Langer EJ. The Wiley Blackwell Handbook of Mindfulness.  Oxford, John Wiley & Sons Ltd, 2014.
  1. Spikins P. Prehistoric origins: the compassion of far distant stranger. In: Compassion: concepts, research and applications. New York, Routledge, 2017.
  1. Kabat-Zinn J. Wherever you go, there you are. New York, Hachette Books, 2005.

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