Solidão -Autocompaixão e as Conexões humanas

”Os seres humanos são criaturas sociais, e sentir-se valorizado pelos outros é a própria base da vida” – Dalai Lama

Você sabia que solidão afeta nossa saúde tanto quanto o  cigarro? E que a solidão pode sinalizar ao nosso cérebro que nosso corpo está sob estresse e provocar reações  como o aumento da pressão arterial e o colesterol, e a ainda perturba o sono, aumenta a depressão e diminui a sensação geral de bem-estar ?Trata-se de uma dor em nosso “corpo social” que precisa ser remediada se quisermos levar uma vida saudável. A vigilância constante que uma  ameaça  desse tipo exige está associada a níveis muito mais alto

os de cortisol pela manhã, com o tempo a solidão prolongada prejudica nosso equilíbrio hormonal e danifica o sistema nervoso

(JINPA,T. 2015).

Ou seja, a relação entre solidão e suas consequências para a saúde física e emocional e mental são complexas; cada um de nós tem uma certa expectativa de estar com os outros que nós herdamos de nossos pais e de nosso ambiente de conexão socialial com os quais nos sentimos confortáveis. Isso explica por que nem todos são igualmente sensíveis ao sentimento de solidão, temos necessidades  e expectativas diferentes em nossos relacionamentos com os outros.

E se formos falar  do  impacto da solidão na saúde nos idosos, isso chama mais atenção ainda, mas não é muito valorizado,  infelizmente.

A solidão é o estado de quem se sente só, traduz isolamento. (FERNANDES; LUFT; GUIMARÃES, 2000). A solidão provoca um sentimento de vazio interior, que pode estar presente no ser humano nas diferentes fases da vida, e tende a ser mais frequente com o envelhecimento. Fatores psicológicos e sociais parecem estar relacionados com o seu surgimento, como a depressão, o luto, o isolamento social e o abandono. (GOLDFARB, 1998; GUIDETTI; PEREIRA, 2008; WORDEN, 1998). A população mundial de idosos está crescendo continuamente e a solidão interfere na qualidade de vida da pessoa, que se priva do convívio, empobrecendo o conhecimento adquirido no contato social e afetando as atividades de vida diária. (LITVOC; BRITO, 2004; PAPALÉO NETTO, 2002).

Foi  realizado  um   estudo do Centro de referência de Geriatria e Gerontologia da Universidade  Federal Fluminense Campus Mequinho e o Setor Ambulatorial Geriátrico do Hospital Universitário Antônio Pedro.   O objetivo foi avaliar o impacto da solidão em idosos, foram avaliados 132 pacientes com sessenta anos ou mais. Observou-se nesta pesquisa que as mulheres se sentem mais solitárias que os homens. Isso pode ser justificado pelo estado civil, visto que a maioria das mulheres entrevistadas era constituída de viúvas e a dos homens descasados. Porém,  mesmo analisando os casados, as mulheres tendem a sentir mais solidão que os homens. Mesmo com o envelhecimento, o sentimento de solidão continua se diferenciando por gênero. Em virtude de um maior período de vida da mulher e da consequente feminização da velhice, o número de viúvas é maior do que o de viúvos. O resultado da conjunção desses dois fatores é um período mais extenso de solidão das mulheres viúvas (ou separadas) em relação aos homens. (VERAS, 1988).  As de oitenta anos ou mais se sentem mais solitárias que homens de oitenta anos ou mais. Parece que o sentimento de solidão é sentido mais em mulheres do que em homens pela forma de construção e expressão do afeto diferente entre os sexos. Entretanto, isso não minimiza a importância da investigação desse sentimento em homens e mulheres, visto que os problemas de saúde nos idosos, causados por patologias múltiplas, são agravados pela solidão. A “solidão que dói” descrita em homens solteiros, divorciados e viúvos foi associada a maior suscetibilidade a doenças como hipertensão, problemas cardíacos, câncer na garganta e pneumonia. (WAITE; GALLAGHER, 2001).

Peplau, Bikson e Goodchuilds ( 1982), sugerem que a solidão pode ser mais severa na velhice, porque as pessoas mais velhas são menos otimistas e eles podem atribuir a essa fase da vida como o fator solidão um fator irreversível, sugerindo que a solidão será mais prevalente na idade avançada.

Observamos a necessidade de gerarmos mais conexões sociais  entre o seres  humanos, e uma das possibilidades em aprendermos a  desenvolver essa habilidade e o manejo da solidão são as  as práticas de mindfulness e autocompaixão.

A compaixão contribui para relacionamentos melhores. A bondade age como uma cola que mantém os vínculos com nossos entes queridos intactos e acaba sendo um fator protetor contra rompimentos desnecessários. Pesquisadores descobriram que a conexão social fortalece o sistema imunológico e a bondade como fator chave para a criação e manutenção de nossas relações sociais, ou seja, ajuda a nos manter saudáveis. A compaixão é uma grande ferramenta contra a solidão que é uma das mais dolorosas formas de sofrimento humano. O cultivo da compaixão ajuda a criar vínculos, esse sentimento dissolve as barreiras que  nos fazem   nos sentir isolados.( JINPA, T 2015 ). Um estudo na Universidade de Chicago acompanhou mais de 2 mil pessoas acima  de 50 anos pelo período de seis anos e descobriu que a solidão extrema tem o dobro de  chance que a obesidade e a hipertensão tem de ser a causa de morte em idosos, os que relataram se sentir solitários tinham um risco 14%  mais  alto de morrer.

Em outro estudo realizado na Universidade Estadual na Turquia, com 398 estudantes universitários, foi aplicada a escala de autocompaixão e escala de solidão.  Encontraram  na análise de correlação auto bondade, humanidade compartilhada e fatores de atenção plena e autocompaixão de forma negativa relacionados a solidão.

Por outro lado, os fatores de autojulgamento, autocrítica, isolamento social foram encontrados positivamente correlacionados a solidão. Esta pesquisa mostra que autocompaixão tem impacto direto na solidão.

A autocompaixão envolve ser bondoso e gentil  em relação a si mesmo diante das dificuldades ou nas inadequações percebidas, reconhecendo o sofrimento  e que  todas as pessoas  são dignas de compaixão ( Neff,2003). A autora ainda propõe  que a autocompaixão três componentes principais:  (1) auto bondade versus auto julgamento, ( 2) senso de humanidade (3) atenção plena e identificação com os pensamentos e emoções.

A postura de auto bondade, refere a ser gentil e compreensivo consigo mesmo em casos de dor ou falhas ao invés de ser autocrítico . A compaixão por si mesmo implica ser menos autocrítico consigo mesmo quando as expectativas não são atendidas, ao invés disso a autocompaixão sugere o individuo tenhar mais paciência e para ajudar a   mudar o comportamento ( Neff, 2003). Já no componente da humanidade compartilhada,  o indvíduo tem a chance de perceber  as próprias experiências felizes ou dolorosas não como pessoais, mas como uma experiência humana, o princípio  da humanidade comum para a autocompaixão envolve reconhecer que todos os seres humanos são imperfeitos e que cometem erros( Neff, 2009),   Tendo essa consciência, percebemos essas experiências como parte da experiência humana, consequentemente fazendo nos sentir menos isolados e alienados da sociedade. Mindfulness, um outro componente da autocompaixão, é uma consciência que permite que o indivíduo aceite  as emoções mais dolorosas da vida, sem ser levados por elas. A atenção plena é um estado  de consciência que regula os sentimentos e pensamentos, que são observados sem evitá-los ou tentativas de mudanças, sem julgamento. Quando os indivíduos aceitam essas emoções e a dor e quando são gentis com suas emoções e não evitando suprimi-las, assim quando eles estão conscientes de que o sofrimento e a dor são algo que todos os seres humanos experimentam, eles aprendem a não ter essa identificação excessiva, e a autocompaixão funciona como uma estratégia adaptativa para a organização das emoções negativas criando emoções mais funcionais com acolhimento e bondade. ( Neff, Hsieh e Dejitterat,2005). Esse estudo sugere o encorajamento das práticas autocompassivas podem ser benéficas para reduzir a solidão, além disso, encorajando  o desenvolvimento  dessas habilidades para o indivíduo se tornar uma pessoa mais gentil consigo mesmo, ajudando a diminuir a autocrítica e a tendência a reconhecer a sua interligação com os outros e lidar com suas emoções com mais clareza e equanimidade ( Nef , 2003). Ainda podemos perceber que  a  autocompaixão tem impacto direto com a solidão, porque pessoas com autocrítica exagerada, isolamento, e identificação com seus pensamentos e emoções, são mais prováveis  de  serem solitárias, comparadas aquelas mais compassiva, com  senso da humanidade compartilhada e atenção plena, concluindo essa relação compaixão e solidão.

Ainda existem poucos estudos com esse tema, mas percebo a necessidade de investigar mais, pois a solidão como foi  dita acima interfere diretamente na qualidade de vida e bem- estar  do ser humano. 

Referências:

Ahmet AKIN- Self-compassion and Loneliness-International Online Journal of Educational Sciences, 2010, 2 (3), 702-718

FERNANDES, F.; LUFT, C. P.; GUIMARÃES, F. M. Dicionário Brasileiro Globo. 53. ed. São Paulo: G lobo, 2000.

GOLDFARB, L. C. Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.

GRIFFITHS, R. A. et al. Depression dementia and disability in the elderly. British Journal of Psychiatry, v. 150, s. n., p. 482- 493, 1987.

GUIDETTI, A. A.; PEREIRA, A. S. A importância da comunicação na socialização dos idosos. Revista de Educação, São Paulo, n. XI, n. 11, p. 119-136, 2008.

LOPES, F . RENATA;LOPES T.F MARIA; CAMARA D. VILMA – Entendendo a Solidão- Rev. Brasileira de envelhecimento Humano, Passo Fundo, v. 6, n. 3, p. 373-381, set./dez. 2009

LITVOC, J.; BRITO, F. C. Envelhecimento: prevenção e promoção da saúde. São Paulo: Atheneu, 2004. PAPALÉO NETTO, M. Gerontologia: a velhice e o envelhecimento em visão globalizada. São Paulo: Atheneu, 2002.

NEFF, K. D. (2003a). Self-compassion: An alternative conceptualization of a healthy attitude

toward oneself. Self and Identity, 2(2), 85102.

NeFF, K. D. (2003b). The development and validation of a scale to measure self-compassion.

Self and Identity, 2(3), 223250.

THUPTEN, J-   Um coração sem medo- Editora Sextante-, 2016

VERAS, R. P. Considerações acerca de um jovem país que envelhece. Cadernos de Saúde Pública, São Paulo, v. 4, n. 4, p. 382-397, 1988

WORDEN, J. W. Terapia do luto. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

. WAITE, L. J.; GALLAGHER, M. The case for marriage: why married people are happier, healthier, and better off financially. Broadway, 272 f.; October 9, 2001

 

Por Marcia Paviani

Psicologa Clinica

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