Os benefícios da autocompaixão nas crianças

Quando pergunto para pais e mães o que eles mais desejam, a resposta da maioria é quase sempre muito parecida, querem que os filhos sejam felizes. Desejar genuinamente o bem e a felicidade dos filhos é extremamente benéfico, mas muitas vezes os pais de forma a seguir um padrão de felicidade a ser conquistada, podem aumentar a autocrítica e seus níveis de estresse e poderão utilizar estratégias agressivas e não assertivas na criação dos filhos.

Observo a tendência de muitos pais e mães em orientar seus filhos para essa desejada felicidade através de suas próprias crenças sobre o que é felicidade, que normalmente está pautada em suas próprias experiências passadas e isso implica em avaliar o comportamento dos filhos no momento presente como adequado ou inadequado com foco no que eles próprios viveram. Com isso a felicidade passa a ser o objetivo a ser alcançado no futuro como propósito de educação.

Vou dar alguns exemplos de pensamentos de pais para situações vividas por seus filhos que geram preocupações com a felicidade a ser atingida: “meu filho está tirando notas baixas e não vai conseguir entrar na faculdade e não vai conseguir um bom emprego e não vai ser feliz”, “minha filha se alimenta muito mal e quando ofereço frutas ela sempre recusa, se ela continuar assim vai crescer e ficar uma adolescente infeliz”, “meu filho é muito envergonhado e eu era assim e sofri muito na minha adolescência, já sofro de ver que ele vai sofrer muito no futuro”, “meu filho puxou o cabelo da irmã por isso bati nele para ele aprender a se relacionar com os outros e não ter problema no futuro”.

Nessas situações, provavelmente não será possível observar o que acontece no momento presente. Quando a atenção dos adultos está no pensamento futuro ou em um pensamento do passado, não é possível observar verdadeiramente a criança, o que dificulta muito a comunicação. Parte dos conflitos e das chamadas birras são originadas por falta de entendimento sobre o que a criança está tentando comunicar, e na maioria das vezes a criança utiliza estratégias de comunicação aprendidas com os adultos.

Quando pais proporcionam um ambiente crítico e ameaçador, muitas vezes motivados para que os filhos sejam felizes, promovem também consequências negativas por esse estilo de criação, como filhos que obedecem por medo, tornando-se inseguros, passivos e não assertivos. 1

As crianças poderão crescer com uma autoimagem negativa, sentimentos negativos, baixa autoestima, depressão e baixa autocompaixão.

A agressividade, adquirida em casa, traspõe nas relações com colegas na escola, tornando-se assim um agressor. A ocorrência de bullying revela que o contexto escolar brasileiro tem se tornado um espaço de reprodução da violência. 2

Um levantamento realizado em 2015 revela que 1 em cada 10 estudantes é vítima de bullying e que apenas 44,6% dos estudantes estão satisfeitos com suas vidas. 3

Um outro estudo realizado com cerca de 400 adolescentes em Portugal demonstrou que a autocompaixão é importante para a regulação da afetividade negativa e sugere a implementação de programas promotores de competências autocompassivas. 4

Existe um estudo que está em andamento há quase oito décadas na Universidade de Harvard que busca a resposta para a seguinte pergunta: “O que realmente nos faz felizes na vida?” e até o momento, muitas conclusões foram levantadas, mas a principal de todas é que o fundamental para a felicidade e uma vida saudável é a qualidade dos nossos relacionamentos, por isso pessoas mais satisfeitas em seus relacionamentos, mais conectadas ao outro, ao seu corpo e cérebro permanecem saudáveis por mais tempo. 5

Bom, então parece simples, vamos ensinar as crianças desde cedo a ter qualidade nos relacionamentos, mas como? Mudando a forma como nos relacionamos com as crianças e conosco, desenvolvendo assertividade e conexão e principalmente encorajando-as a desenvolver atitudes de autocompaixão, o que significa tratar-se da mesma maneira que trataria um amigo em momentos de dor.

A autocompaixão é um antídoto simples mas poderoso para a nossa tendência de nos esforçarmos para a perfeição, o que ocorre quase diariamente com a maioria dos pais. A autocompaixão não depende de nós alcançarmos objetivos específicos, de acordo com um padrão específico ou uma visão particular de nós mesmos, pelo contrário é quando sentimos que falhamos, quando nos sentimos envergonhados, desapontados ou chateados com nós mesmos, e de forma consciente e gentil aceitamos essa condição. 6

O que não pode ser aceito é um aprendizado, comum nas famílias, no ambiente de trabalho e no ambiente escolar, traduzido nas palavras de Auden:

“O público e eu sabemos o que todas as crianças aprendem aqueles a quem se faz o mal fazem o mal em troca” W.H.Auden 7

A autocompaixão, entendida como uma estratégia de regulação emocional eficaz e adaptativa para lidar com pensamentos, sentimentos indesejados ou desagradáveis e acontecimentos de vida negativos ou dolorosos, tem sido associada ao bem-estar emocional e psicológico. 8

A autocompaixão é o oposto da autocrítica, uma criança tímida e autocompassiva, por exemplo, dirá a si mesma que tudo bem sentir-se tímido às vezes e que não é tão extrovertida quanto os outros e assim, poderá com gentileza, criar maneiras de lidar com uma situação em que ela enfrenta a timidez, proporcionando o desenvolvimento das habilidades sociais. 9

Uma pesquisa revelou que autocompaixão está negativamente associada com o autocriticismo, a depressão, a ansiedade, a ruminação, ao perfeccionismo e a afetividade negativa no geral. Por outro lado, o mesmo conceito aparece positivamente associada com a satisfação com a vida, a felicidade, inteligência emocional, a conectividade social, a sabedoria, a iniciativa pessoal, o otimismo, a curiosidade e exploração, a agradabilidade, a extroversão, a conscienciosidade e a afetividade positiva no geral. 10

 

Uma escola na Suécia, fundada em Agosto de 2016, funciona com uma única regra: “desejamos bem uns aos outros e juntos ficamos e somos bons” e duas perguntas a partir destas regras: “por que?” e “por que não?”, e então tudo pode ser decidido.

Essa proposta pedagógica social voltada para o bem comum proporciona liberdade, autonomia, responsabilização e compaixão. 11

Outras escolas estão incluindo programas de educação socioemocional para proporcionar o desenvolvimento de habilidades sociais, empatia, mindfulness e compaixão e assim garantir que no presente possamos viver felizes mesmo nos nossos piores momentos.

Plantando sementes de compaixão, diminuímos a agressividade e ampliamos a amorosidade melhorando a qualidade de nossas vidas. Começar dentro das escolas e das famílias é um passo grande para abraçar o mundo e cultivar o que existe de melhor em cada um de nós.

 

Por Fabiana Saes Psicóloga

Revisado por Renata Gomes e Paula Teixeira

 

 

 

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  1. Caminha, M.G. & Col. Intervenções e treinamento de pais na clínica infantil. Porto Alegre: Sinopsys, 2011.
  2. MALTA, Deborah Carvalho et al . Bullying em escolares brasileiros: análise da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2012). Rev. bras. epidemiol. São Paulo ,  v. 17, supl. 1, p. 92-105, 2014 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-790X2014000500092&lng=en&nrm=iso>. access on  06  Aug.  2017.  http://dx.doi.org/10.1590/1809-4503201400050008
  3. http://www.folhadelondrina.com.br/geral/um-em-cada-dez-estudantes-e-vitima-frequente-de-bullying-975466.html
  4. Costa, H.M.M. Os Contributos da autocompaixão e da esperança para o bem-estar psicológico e subjetivo de adolescentes do ensino secundário. Tese (Dissertação de Mestrado). Universidade de Coimbra, Coimbra, 2015. Disponível em: <https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/32438/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20-%20Henrique%20Costa.pdf>
  5. Martins, A. O que realmente nos faz felizes? As lições de uma pesquisa de Harvard que há quase oito décadas tenta responder a essa pergunta. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/curiosidades-38075589>
  6. Bögels, S. & Restifo, K. Mindful Parenting. A guide for mental health practitioners. NY: Norton, 2015.
  7. Miller, A.G. The Social Psychology of Good and Evil. NY: The Gilford Press, 2004.
  8. Cunha,M. Xavier, A. Vitória, I. Avaliação da auto-compaixão em adolescentes: adaptação e qualidades psicométricas da escala de auto-compaixão. Revista de Psicologia da Criança e do Adolescente. Lisboa, 4(2) 2013.
  9. Seppälä, E. A leading happiness researcher says we’re giving our kids bad advice about how to succeed in life. Disponível em: <https://qz.com/1021749/a-leading-happiness-researcher-says-were-giving-our-kids-bad-advice-about-how-to-succeed-in-life/?utm_source=atlfb>
  10. Silva, J.E.R. Mindfulness, Autocompaixão e bem-Estar Espiritual na Depressão Crônica. Tese (Dissertação de Mestrado em em Psicologia Clínica), Instituto Superior Miguel Torga, Leiria, 2015. Disponível em: <http://repositorio.ismt.pt/bitstream/123456789/560/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o.pdf>
  11. Gill, L. Glömstaskolan: the school with just one rule. Disponível em: <https://workfutures.io/gl%C3%B6mstaskolan-the-school-with-just-one-rule-532710efd598>

 

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