O poder da admiração (awe): bom para nossas mentes, corpos e conexões sociais.

Você talvez conheça a emoção que surge no centro do seu peito ao olhar atento e curioso para um imenso céu vastamente estrelado ou ainda, as sensações que acontecem ao presenciar um abraço sincero de profundo amor em um aeroporto durante uma chegada ou uma partida.

 

Essa emoção que provoca  sensações que invadem nosso corpo, expande nosso peito e arranca de nós suspiros genuínos tem sido estudada pela ciência e em inglês se chama AWE. No português não temos uma palavra tão exata para tradução direta e que descreva exatamente do que o AWE se trata, mas seria algo como admiração sublime ou reverência.

 

Nem mesmo a ciência consegue ainda entender bem essa complexa emoção. Awe é aquela emoção que nasce enquanto contemplamos em uma caminhada uma paisagem majestosa, admiramos uma incrível obra de arte ou assistimos ao nascimento de uma criança. Experiências como essas nos enchem de uma sensação de profunda conexão e desafiam nossa compreensão do mundo e do nosso lugar nele.

 

As pesquisas sugerem que a ADMIRAÇÃO aumenta o nosso bem-estar e nos leva a ser mais altruísta e generosos, mas ainda não está claro por que isso acontece.

 

Esse campo de pesquisa ainda é incipiente, porém os pesquisadores da Universidade da Califórnia, Berkeley, referem que as pesquisas têm apontado que a admiração/reverência foi essencial para propósitos evolutivos da espécie humana, e ainda o é.

 

Por que sentimos ADMIRAÇÃO SUBLIME?

De acordo com Dacher Keltner, pesquisador do Laboratório de Emoções da Berckley, existem importantes razões evolutivas para o AWE: é bom para nossas mentes, corpos e conexões sociais.

Sentir reverência e admiração parece ajudar as pessoas a terem um olhar menos autocentrado, se concentrarem menos em si  e ampliar o olhar para além do que está apenas relacionado a suas próprias necessidades – olhando também na direção de outras pessoas e em direção ao mundo.

Sentir admiração parece fazer com que as pessoas naturalmente tenham mais engajamento social. (1)

 

As direções das pesquisas:

Diversos estudos têm sido conduzidos internacionalmente liderados pela Universidade de Berckley e nós vamos comentar alguns experimentos que levaram a relevantes informações sobre a admiração sublime.

Primeiro experimento: sentindo que somos um pequeno pedaço desse mundo

Uma dessas pesquisas estudou indivíduos da China e dos Estados Unidos em diversas situações para avaliar melhor a admiração sublime e seus efeitos, os participantes foram convidados a descrever em seus diários se ao longo do dia:

  1. Tivessem uma experiência de admiração sublime;
  2. Tivessem uma experiência de alegria, caso não tivessem sentido a emoção de admiração
  3. Não tivessem sentido nenhuma emoção no dia mas gostariam de compartilhar algum fato

Ainda, no diário, os participantes avaliavam se tinham sentido emoções positivas e negativas- como esperança, gratidão, inveja, constrangimento.

Após essas notas os mesmos avaliavam seu “tamanho” em uma escala na qual se escolhe,entre uma série de círculos, o que mais se aproxime da seu senso de tamanho pessoal (essa escala já foi validada e não demonstra correlação o tamanho do corpo).

A pesquisadora Yang Bai diz que o resultado não surpreendeu pois “Quando sinto a admiração, sinto que sou apenas um pequeno pedaço deste grande mundo”, refere. “É uma espécie de sentido metafórico do eu que está diminuindo durante a admiração”.

Os participantes chineses foram mais afetados pelo awe. Seus “tamanhos referidos” foram significativamente menores que dos americanos quando experimentam níveis similares de admiração, ou seja, um mesmo nível de admiração fazia com que os chineses se classificassem menores do que os americanos.

Segundo experimento: O paradoxo do “senso menor de si mesmo”, quando me sinto menor de maneira individual meu mundo aumenta

Os pesquisadores também realizaram um experimento de laboratório com chineses e americanos que foram escolhidos de maneira randomizada a assistirem um filme curto e inspirador de natureza e outra parte a um vídeo de humor.

Foram feitas medidas ante e depois do vídeo que verificaram o “auto-tamanho”, emoções positivas e negativas e status social percebido. Os resultados mostraram que os vídeos de admiração provocaram consistentemente um menor senso de si mesmo.

Ainda não se sabe porque a admiração guia a uma diminuição do senso pessoal.

“Enquanto nos sentimos pequenos em um momento de admiração, estamos nos sentindo conectados a mais pessoas ou nos sentindo mais próximos dos outros. Essa é a finalidade do awe, ou pelo menos um dos seus propósitos. ” -Yang Bai, Universidade da Califórnia, Berkeley.

Acredita-se que admiração sublime é uma parte fundamental do ser humano, tornando nossos corpos e mentes mais receptivos a novas informações, novas experiências e ao significado mais profundo da vida.

Terceiro experimento: a admiração como meio de conexão social

Possivelmente o AWE nos mantém conectados e para investigar esse aspecto o grupo de pesquisa novamente selecionou de maneira novamente aleatória indivíduos americanos e chineses para assistirem um vídeo inspirador ou um vídeo humorístico.

Dessa vez os participantes foram instruídos a desenhar uma imagem de seu círculo social atual, usando círculos para representar pessoas (incluindo elas mesmas) e distâncias entre círculos para representar o quão perto eles se sentiam de cada membro de sua rede social. Eles também preencheram um questionário sobre suas emoções.

Esse experimento verificou que as pessoas que assistiram ao filme inspirador desenhou círculos menores como representação pessoal de si e os círculos que representavam a sua rede de pessoas próximas estavam mais perto do círculo que representava a si mesma.

Quarto experimento: identidade social em detrimento da identidade individual

A pesquisadora Michelle Shiota pediu em seu estudo (3) para indivíduos preencher o espaço em branco da frase: “EU SOU ____”. Cada pessoa fez isso por 20 vezes. Porém metade dos participantes foram orientados a fazer isso olhando para réplica impressionante de um esqueleto de T. rex no Museu de Paleontologia da UC Berkeley. A outra metade foi orientada a olhar para baixo de um corredor.

Aqueles que olhavam o dinossauro foram mais propensos a preencher a lacuna com termos mais coletivistas – como um membro de uma cultura, uma espécie, uma universidade, uma causa moral. O experimento chegou a conclusão que a admiração também cria uma identidade  social em detrimento da identidade individual.

Quinto Experimento: a diferença entre se sentir menor guiado pela culpa/vergonha ou pela admiração/reverência

Os participantes foram separados em grupos randomizados e convidados uma parte a lembrar e escrever sobre situações em que sentiram reverência, outra parte foi solicitado que escrevessem sobre um evento que se sentiram envergonhados ou culpados e um grupo controle escreveu sobre uma experiência pessoal neutra.

Antes e depois de escreverem sobre esses temas os participantes preencheram as escalas de auto referencia de tamanho pessoal, questionários de auto-estima, status social e sensação de poder pessoal.

Os participantes dos grupos que escreveram sobre eventos vergonhosos e sobre momentos de admiração nos questionários pós intervenção se referiram com menor tamanho de si comparados ao grupo que escreveu sobre um evento neutro. Porém, os participantes que escreveram sobre um evento vergonhoso além de se referirem menores após o experimento apresentaram menor auto-estima, menor estatus social e menos sensação de poder pessoal enquanto que os que se referiram menores após escreverem sobre a admiração não tiveram alteração nessas escalas.

O que demonstrou, novamente, que a admiração levou a uma sensação de um “eu pessoal” menor, assim como a culpa e a vergonha, porém esse se sentir menor é diferente.

“Nós podemos nos sentir pequenos em resposta a diferentes tipos de emoções – por exemplo, quando você se sente envergonhado, você também se sentirá pequeno. No entanto, a pequenez provocada pela admiração é única”, diz Bai.

Então precisamos estar em contato com paisagens majestosas?

A admiração, então, é o sentimento de estar na presença de algo vasto que transcende sua compreensão do mundo.

A boa notícia é que não é apenas na presença de uma estonteante noite enluarada em uma praia paradisíaca ou ao presenciar a aurora boreal que você pode sentir admiração sublime.

Você pode exercitar seu olhar atento e curioso de admiração sublime para eventos comuns. Lembre-se que a base da admiração sublime é mindfulness, já que é necessário estar presente para que se possa ter essa emoção.  

Tente procurar a admiração nas ações das pessoas a sua volta e paisagens comuns de seu dia a dia. Experimente as vantagens que essa emoção pode trazer para sua vida e para os demais que estão a sua volta. Passar a olhar ao seu redor com atenção plena e procurar o sublime a sua volta será uma grande exercício.

Para terminar esse texto convido você a ligar o som e colocar esse vídeo em tela grande.

https://www.youtube.com/watch?v=N6-2fVsFV8E

 

Deixo ainda, uma prática publicada na revista online “Mindful”  para praticar a admiração sublime:

 

Caminhada Reverencial (Awe Walk)

https://youtu.be/TKterwanr1Y

 

“Começamos uma Awe Walk enquanto fazemos todos os exercícios contemplativos, com a respiração.

 

  1. Inspire profundamente. Conte até seis enquanto você expira e novamente seis enquanto você inspira. Sinta o movimento do ar através de suas narinas e ouça o som da sua respiração. Retorne a essa respiração diversas vezes ao longo da caminhada.

 

  1. Sinta os pés no chão e escute os sons circundantes. Volte para a respiração. Conte até seis enquanto você inspira e seis enquanto expira.

 

  1. Mude sua consciência agora para que você se torne aberto ao que está ao seu redor, a coisas que são vastas, inesperadas, coisas que surpreendem e deleitam. Respire fundo. Conte até seis enquanto você expira e seis enquanto você inspira.

 

  1. Deixe a sua atenção aberta para explorar o que lhe inspira admiração. Sua atenção pode apreciar vastos espaços, os sons e pontos de vista dentro deles. Você pode mudar para pequenos padrões, por exemplo, uma planta no chão ou as veias nas folhas ou um conjunto de cogumelos minúsculos.

 

  1. Volte sua atenção para a respiração. Conte até seis enquanto você expira e seis enquanto você inspira. Saindo dessas experiências de admiração, muitas vezes sentimos um sentimento de maravilha.

 

A coisa impressionante, uma vez que você realmente começa a pensar sobre admiração se tentar praticá-la em sua vida, de tão onipresente que essa emoção é. Ao passar do dia, tome nota dos momentos que lhe trazem maravilhas, que lhe dão arrepios: estas são suas oportunidades de admiração.

A Meditação Guided Awe Walk é apresentada por Mindful em colaboração com o Greater Good Science Center, a Universidade de São Francisco e o Sierra Club Outdoors.

Produzido por: Heather Hurlock, Editor da Mindful.org

Narrado por: Dacher Keltner, Professor de Psicologia, UC Berkeley, Diretor da Faculdade, Greater Good Science Center

Vídeo, fotografia e edição por: José Luis Aranda Nucamendi da Universidade de São Francisco

Produção de vídeo de: Lisa Beth Anderson da Universidade de São Francisco

Agradecimentos especiais a: Jason Marsh, Stephany Tlalka, Christel LeBlanc, Melinda Moses, Eric Hurlock, Ernie Tokay e todas as pessoas doentes em Muir Woods que nos ajudaram ao longo das trilhas” Essa prática foi originalmente publicado em Mindful.  

Desejo que encontre momentos de admiração e vivencie-os com plenitude; veja até onde eles o guiam e como o fazem sentir. Nosso mundo atual precisa desse sentimento de pertencimento frente a magnitude do mundo e do todo.

 

Paula Teixeira é médica. Instrutora profissional de Mindful Eating  (MBEAT). MEMBRO do Conectta rede de mindfulness e compaixão.

1)Bai, Y., Maruskin, L. A., Chen, S., Gordon, A. M., Stellar, J. E., McNeil, G. D., . . . Keltner, D. (2017). Awe, the diminished self, and collective engagement: Universals and cultural variations in the small self. Journal of Personality and Social Psychology, 113(2), 185-209.

http://dx.doi.org/10.1037/pspa0000087

 

2)Rudd, M., Vohs, K. D., & Aaker, J. (2012). Awe expands people’s perception of time, alters decision making, and enhances well-being. Psychological Science, 23(10), 1130-1136.

3) Shiota, Michelle N., Dacher Keltner, and Amanda Mossman. “The nature of awe: Elicitors, appraisals, and effects on self-concept.” Cognition and emotion 21.5 (2007): 944-963.