Conectados com nossas intenções

 

Nossas intenções determinam o tom de nossas ações – desde as pequenas atividades do dia a dia até projetos de médio e longo prazos. Como a música, a intenção pode influenciar nosso humor, nossos pensamentos e sentimentos. E, ao longo do tempo, podemos tornar nossas motivações cada vez mais alinhadas com nossas intenções, com consciência e reflexão persistentes.

Nas atividades diárias ou em projetos que consideramos importantes, vale perguntar: o que motiva essa ação? Por que estou fazendo isso? Por que eu me sinto bem fazendo isso? Quais das minhas necessidades são atendidas no momento da minha ação? Isso é benéfico só para mim ou também para os outros? Para agora ou para o futuro? Essas questões nos ajudam a esclarecer nossas motivações, porque trazem uma consciência crítica (no sentido de objetividade e critério, não de julgamento) para nossa relação com o que fazemos. Além disso, ter clara a nossa motivação é muito importante, pois nos ajuda a atuar com segurança e menos contaminados pelo medo.

O envolvimento cognitivo (consciência) é importante e crucial no processo. Por meio dele, conectamos intenção (deliberação) e motivação. Há uma ligação crucial a ser observada – entre a nossa consciência da meta e da razão pela qual devemos persegui-la, nossos sentimentos sobre ela, e nosso desejo ou vontade de ir atrás do que queremos. O processo de estabelecer intenções e refletir sobre elas com alegria é a melhor maneira de transformar a motivação extrínseca (mais superficial) em intrínseca (mais estável e duradoura). E, portanto, de manter a energia e o propósito de viver realmente de acordo com as nossas melhores aspirações. A qualidade da motivação que levamos ao trabalho, às férias, à meditação, à rotina com os filhos ou a qualquer coisa se infiltra na própria natureza da ação.

Dessa forma, assumimos responsabilidade por nossos pensamentos e nossas ações. Nesse processo, observamos, identificamos, nomeamos e atendemos nossas necessidades. Repensamos e (re)construímos nossos valores. Conseguimos agir de forma bondosa, honesta, generosa e compassiva. E assim, de maneira simples, aprendemos a cultivar a compaixão e adotar uma comunicação não-violenta, conosco e com os outros. Marshall Rosenberg, psicólogo americano criador do conceito de comunicação não-violenta, diz que uma necessidade não reconhecida e não satisfeita pode ser manifestada de maneira trágica. Por outro lado, quando estamos bem com nós mesmos, nutridos de bem-estar, equilíbrio e felicidade interna, conseguimos colocar a compaixão em contato com nossos pensamentos e ações. Em vez de muros, criamos pontes.

É um processo de retroalimentação construtiva. Quanto mais cultivamos nossa intenção, começa a surgir a motivação compassiva de maneira espontânea. O cultivo da compaixão, por sua vez, permite-nos desenvolver uma felicidade (mais interior do que exterior) que nos acompanha em momentos difíceis. E o processo de cultivo dessa felicidade requer compromisso, energia, tempo, clareza e conexão com nossa motivação. Abastecido com esses combustíveis, o corpo reage de forma diferente, com o coração preparando-o para agir. A força da motivação aumenta devido a um ciclo de desejo e recompensa – quando algo que fazemos é recompensador, queremos fazer de novo. Quando fazemos de novo, somos recompensados mais uma vez e nos sentimos motivados a repetir a ação.

Mas como fazer isso na prática e no dia a dia? Estabelecendo uma intenção pela manhã, criamos o tom do dia. Simples assim. Se estruturarmos nosso dia com os exercícios de intenção e de dedicação, podemos mudar a maneira como vivemos. No livro “Um coração sem medo”, Thupten Jinpa* recomenda uma prática chamada “estabelecendo a intenção”, uma espécie de checagem na qual nos conectamos com nossas aspirações mais profundas para que elas deem forma às nossas intenções e motivações. Você pode conferir esta prática* no fim deste texto.

E como fazer isso na prática de Mindfulness? Inevitavelmente, nossas mentes se distraem ao longo da meditação. Muitas vezes sentimos dificuldades em permanecer em estado de atenção plena. Como se estivéssemos em frente à TV e o controle remoto ganhasse vida própria e percorresse vários canais – nossos pensamentos e nossas emoções. Mas podemos recuperar o controle remoto e colocar no nosso colo. Basta lembrar o propósito para o qual isso tudo está sendo feito – intenção, motivação. Podemos revisitar a intenção da prática quando identificarmos a distração e recuperar o controle remoto.

No caso de Mindfulness com foco no cultivo da compaixão, só fará sentido se houver um desejo genuíno ou aspiração de liberar o mal-estar (nosso e do outro). Essa intenção é sempre voluntária e consciente. E ajuda a mente para que ela seja mais clara, mais sábia, mais compassiva. Dessa maneira, podemos fazer com que mindfulness, compaixão e comunicação não-violenta andem juntas. O cultivo da atenção plena nos dá clareza do que está vivo em nós – nossos sentimentos. E, por saber o que estamos sentindo, podemos identificar nossas necessidades. É importante voltar ao interior e, de forma honesta, estar em conexão com os sentimentos e identificá-los, de modo que floresça espontaneamente a intenção de satisfazê-los. Quanto mais estamos conectados com o sentimento e a necessidade, esse movimento nasce e então a intenção chega naturalmente, não se restringindo a algo mental. Ela surge de forma compassiva, natural, espontânea. Uma comunicação de paz, conexão e reconciliação. Mais uma vez – conosco e com os outros.

“Você é seu próprio inimigo e seu próprio salvador”, disse Buda. Nossos pensamentos, nossas emoções e nossas ações são as principais origens de sofrimento, mas também a maior fonte de alegria e de liberdade. Viver o máximo possível, com uma intenção consciente, é o primeiro passo para uma transformação. Vamos começar?
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*Prática “Estabelecendo a intenção”, do livro Um coração sem medo, Thupten Jinpa Você pode fazer este exercício assim que acordar. Também pode realizá-lo no ônibus ou no metrô; a caminho do trabalho; em sua mesa no escritório antes de começar o dia etc. Reserve de dois a cinco minutos, sem interrupção. Com os olhos fechados, faça três a cinco respirações longas e lentas. Inspire e expire profundamente. Quando se sentir mais calmo, contemple as seguintes perguntas: “O que eu valorizo profundamente? O que, no fundo do meu coração, desejo para mim mesmo, meus entes queridos e para o mundo?” Concentre-se um pouco nessas questões e veja se surge alguma resposta. Se não houver uma resposta específica, não se preocupe, apenas fique com as perguntas em aberto. Pode ser difícil se acostumar com isso, uma vez que, no Ocidente, em geral esperamos responder às perguntas que fazemos. Acredite que as próprias perguntas estão funcionando, mesmo – e especialmente – se não encontrar respostas prontas. Se e quando as respostas surgirem, reconheça-as e preste atenção a quaisquer pensamentos e sentimentos que elas possam trazer. Por último, desenvolva um conjunto de pensamentos como sua intenção consciente – para o dia de hoje, por exemplo. Você pode pensar: “Hoje, que eu esteja mais consciente do meu corpo, da minha mente e das minhas palavras quando interagir com os outros. Que eu evite ao máximo ferir os outros deliberadamente”. Tente encontrar oportunidades durante o dia para checar suas intenções identificadas na parte da manhã.

 

Por Viviane Fukugawa

 

*Sobre Thupten Jinpa
Nasceu no Tibete em 1958. Ex-monge tibetano, possui um Ph.D. na Universidade de Cambridge, além de ser titular da cadeira de Estudos Religiosos na Universidade McGill e presidente do Mind and Life Institute, dedicado a promover diálogos entre a ciência e o conhecimento contemplativo. Desde 1987 é tradutor e intérprete do Dalai Lama, já tendo traduzido e editado mais de dez livros do líder espiritual. Jinpa mora em Montreal, no Canadá, com a esposa e as filhas.