Concepções sobre Mindfulness e o contexto atual: moda passageira?

 

Quantas vezes você já se deparou com o termo mindfulness ou atenção plena recentemente? Será que mindfulness é mais um modismo?

 

Esse texto teve inspiração direta de um artigo recente da Ellen Langer publicado no “Los Angeles Times”: No, mindfulness is not a fad (Não, mindfulness não é uma moda passageira). Não queria fazer apenas a tradução do mesmo, mas sim, fazer uma breve caminhada, partindo especificamente de duas concepções de mindfulness, apresentadas por Langer e Kabat-Zinn.

Primeiramente, o que é Mindfulness? No contexto das intervenções baseadas em Mindfulness (MBIs), sendo o primeiro programa desenvolvido por Jon Kabat-Zinn, o termo em inglês, traduzido da palavra sati, no idioma pali, quer dizer estar atento, com consciência plena, e significa também, lembrar. Lembrar não no sentido de lembrança como recordação de memórias, mas sim, considerando que para nos recordarmos de algo, precisamos ter vivido com consciência plena. (DEMARZO e CAMPAYO, 2015; GERMER, 2015)

Jon Kabat-Zinn é considerado o “pai” do Mindfulness no Ocidente, responsável pela realização de diversas pesquisas na área da saúde com o uso das práticas meditativas. Ele partiu da sua experiência pessoal com a meditação e trouxe essa prática para o contexto da saúde, adaptando no famoso protocolo de Redução do Estresse baseado em Mindfulness (MBSR – Mindfulness-Based Stress Reduction), que foi a base para a criação de outros protocolos, também baseados em mindfulness.

Mindfulness não é meditação, porém, esta é uma das práticas mais utilizadas para se chegar ao estado de consciência e de atenção plena. Para Kabat-Zinn (2013) as práticas formais de meditação são uma forma de se chegar a esse estado de consciência plena, sendo que em seu famoso conceito, mindfulness é justamente a consciência que se desenvolve ao prestar atenção no momento presente de forma intencional e com aceitação. Vale ressaltar que Jon Kabat-Zinn propõe que essa atenção tenha alguns elementos que a diferenciam, ou seja, as atitudes em Mindfulness: não julgar (não se deixar levar por preferências nem aversões), paciência, mente do principiante, confiança, sem lutar, soltar.

Se Kabat-Zinn é o “pai”, Ellen Langer pode ser considerada a “mãe” do mindfulness. Langer tem um histórico de mais de quatro décadas de pesquisa empírica sobre mindfulness. Nos seus estudos, partiu inicialmente do conceito de mindlessness, que é um modo de funcionar guiado por um piloto automático, uma única forma de funcionar (Vandenberghe e Assunção, 2009). Embora o piloto automático possa facilitar nossas vidas em diversos momentos, viver sob o estado de mindlessness provoca diversos efeitos adversos em nossas vidas:

– Visão limitada de si; 
– Maior propensão a cometer injustiças e crueldades; 
– Comparar-se a outras pessoas; 
– Visão restrita de soluções diante de situações-problema; 
– Não percepção do contexto e de novas informações sobre o mesmo.

Ao contrário de Kabat-Zinn, Langer não trabalha com as práticas meditativas. Langer (2017) concorda que a meditação é uma forma que nos leva a estar mais conscientes, mas é apenas uma das ferramentas, não é a única. A atenção plena pode ser trabalhada ao se notar coisas novas, quando nos abrimos para explorar algo que antes julgávamos conhecer, e que quando prestamos atenção, vemos que tinha mais a ser percebido. Notar coisas novas é uma forma de nos colocarmos no momento presente (momento presente diz respeito ao “local” onde estão nossos pensamentos, ou seja, nossa atenção está direcionada aos eventos internos e externos que estão acontecendo no momento presente, em vez de estarmos com uma atenção rígida ao passado, com remorso, arrependimento ou no futuro, com medo e ansiedade). A autora propõe que esse estado de consciência plena seja desenvolvido a partir atividades diárias que promovam a abertura a novas informações e um novo foco. Ela nos convida, por exemplo, a usar diferentes lentes para enxergar uma determinada situação:

_ E se eu fosse… uma criança? Como eu veria essa situação?

_ E se diante dessa mesma situação, eu fosse uma mãe?

_ O que um motorista de caminhão notaria nessa situação?

Ela acredita que com exercícios como esse, poderemos enxergar em uma mesma situação, versões distintas e diferentes pontos de vista, em vez de ficarmos exclusivamente com o nosso. Seria possível ver em uma paisagem, diversas paisagens.

Podemos fazer isso nas nossas atividades diárias, que muitas vezes caem no piloto automático, como o ato de comer. Comemos todos os dias (nós, privilegiados), e muitas vezes encaramos o comer de forma mecânica, sem nos atentar para tudo que está envolvido nesse momento.

Experimente na próxima vez que for comer primeiro observar o seu alimento, explore-o com os seus cinco sentidos: Veja, Cheire, Escute (há algo para escutar?), Sinta a sua textura, Sinta o seu paladar. Não tenha pressa! Não precisa fazer a refeição toda assim, dedique um minuto fazendo isso. Experimente!

Tanto para Langer, como para Kabat-Zinn, desenvolver mindfulness proporciona uma maior sensibilidade ao contexto e favorece a plena consciência que nos torna mais aptos a agir. Os dois também partilham o entendimento do sofrimento humano a partir da ação sem atenção, da limitação de perspectivas e também do uso de conceitos rígidos. Também acreditam que a abertura à vivência do momento, a ampliação da percepção do contexto, e o reconhecimento da responsabilidade das próprias escolhas, podem ser soluções para a falta de presença e atenção. (Vandenberghe e Assunção, 2009)

Vamos pensar na contribuição que o estar sensível ao contexto pode trazer para a nossa vida. Ao estar presente em uma situação, consigo identificar os fatos, observar sem me deixar levar pelas minhas interpretações. Consigo assim, avaliar, considerar, ponderar, para então escolher como responder a esta situação. Sem essa sensibilidade ao contexto, sem essa consciência, sem essa presença, a resposta provável, é apenas uma reação, mecânica e automática. A falta de presença nos faz medir o outro pelas nossas necessidades, desconsiderando que ele pode ter necessidades totalmente diferentes das nossas.

Dois autores, duas leituras diferentes, com décadas de estudos sobre mindfulness e sua influência no nosso dia a dia. Um, baseado nas práticas meditativas formais, a outra, baseada nas atividades informais realizadas com atenção e curiosidade; os dois falando da importância do estar presente no momento. As décadas de estudos destes dois pesquisadores, e de tantos outros mais, têm mostrado os benefícios da atenção plena em diversos aspectos da nossa vida, dos nossos relacionamentos à nossa saúde.

Com todo esse conhecimento produzido e benefícios comprovados, como pode ser a atenção plena uma moda passageira? Acredito que não, e também tenho meu desejo profundo que não seja uma moda passageira. Que de uma forma, ou outra, mais pessoas possam ter acesso e conhecer a importância do estar presente, consciente, nas nossas relações, na nossa vida. Que ao contrário de modismo, mais pessoas possam cada vez mais estar presentes.

 

Texto de Renata Gomes Netto, psicóloga e facilitadora de Mindfulness (MBRP).

 

Referências:

DEMARZO, M. e CAMPAYO, J. G. Manual prático mindfulness: curiosidades aceitação. São Paulo: Palas Athena, 2015.

GERMER, C. K. Mindfulness: O que é? Qual é a sua importância? In: GERMER, C. K. et al. (2015). Mindfulness e psicoterapia. Porto Alegre: Artmed, 2015.

LANGER, E. No, mindfulness is not a fad. Los Angeles Times. 26/11/2017. Acesso: http://www.latimes.com/opinion/op-ed/la-oe-langer-mindfulness-is-not-a-fad-20171126-story.html

KABAT-ZINN, J. (2013). Mindfulness para principiantes. Barcelona: Kairós.

VANDENBERGHE, L.; ASSUNÇÃO, A. B. Concepções de Mindfulness em Langer e Kabat-Zinn: um encontro da ciência Ocidental com a espiritualidade Oriental. Contextos Clínicos, 2(2):124-135, julho-dezembro 2009.