Comunicação Não-Violenta, Mindfulness e Compaixão: Uma breve reflexão

Esse texto tem como objetivo fazer um convite à reflexão sobre a contribuição da atenção plena para a linguagem da comunicação não-violenta, alimentando nossa característica inata de ser compassivo.

Rosenberg (2006) inicia o seu clássico sobre Comunicação Não-Violenta (CNV) abordando uma característica que atribui ser da natureza humana: o dar e o receber compassivo. Considerando essa natureza, nas palavras de Armstrong (2012), temos que a compaixão é algo essencial para a humanidade, pois existe uma necessidade biológica tanto de receber cuidados, quanto de cuidar dos outros. Em Gilbert (2009) também encontramos a compaixão a partir das suas dimensões que se relacionam a uma mentalidade de cuidado, envolvendo o não julgamento, a aceitação e a tolerância.

Germer, Morgan e Morgan (2016) trazem os radicais latinos da palavra compaixão pati (sofrer) e com (com), cujo significado é sofrer com outra pessoa. Diferente da empatia que envolve ressonância com todos os estados de sentimento, os autores trazem a compaixão como uma experiência compartilhada de sofrimento em particular. Os autores também apontam a dimensão do cuidado na compaixão, destacando a importância do altruísmo, da motivação que temos de ajudar os outros. Estes autores complementam diferenciando a compaixão do sentimento de pena, que no caso remete a uma posição desigual entre aquele que dá e aquele que recebe bondade (cuidado).

 

Vamos abordar Mindfulness a partir da clássica definição de Kabat-Zinn, como referência a uma consciência sincera, atenta, intencional, de momento a momento, e sem julgamentos, que favorece a construção da visão das coisas como elas realmente são. Traduzido como Atenção Plena e Consciência Plena, aborda a nossa capacidade de trazer a atenção para o que está acontecendo no presente, seja interna ou externamente, sem julgar essa atenção ou esse acontecimento. Mindfulness é uma forma de estarmos realmente presentes no momento presente, sem olhá-lo com vontade de mudá-lo, simplesmente acolhendo com compaixão, vivendo com intenção.

 

E como relacionar CNV, Mindfulness e Compaixão?

Como essa necessidade de cuidar e ser cuidado, como essa natureza compassiva encontra a comunicação não-violenta?

O que o estar presente no presente traz para essa relação?

Investigando o comportamento compassivo, Rosenberg identificou que a comunicação é um fator determinante para o florescer da nossa compaixão natural, e assim desenvolveu uma abordagem específica de comunicação, pautada na entrega de coração, o que favorece a conexão e como consequência, a compaixão. O autor afirma não apresentar nada de novo em sua abordagem da comunicação, diz apenas fazer um resgate e um convite para lembrar a todos o que já é sabido, sobre a forma como devemos nos relacionar uns com os outros, e traz a base da CNV nas “habilidades de linguagem e comunicação que fortalecem a capacidade de continuarmos humanos, mesmo em condições adversas”. (Rosenberg, 2006, p. 21)

Rosenberg apresenta a CNV como uma linguagem para a vida, que contribui para uma reformulação da forma como nos expressamos e também de como ouvimos os outros. Nessa linguagem o foco não são necessariamente as palavras ditas, mas sim, a consciência dos quatro componentes a seguir:

  • Observação: o que de fato está acontecendo nesta situação?

O primeiro componente propõe observar a situação, fazendo a distinção entre o que é realmente observado e a nossa possível avaliação e julgamento. Esse passo é importante porque a combinação da observação com uma avaliação, tende a soar como crítica para quem escuta.

 

  • Sentimento: como me sinto observando esta situação? Como o outro se sente observando a mesma situação?

Expressar como nos sentimos é o segundo componente, e para isso é importante desenvolver um vocabulário que permita nomear e identificar os sentimentos de forma clara. Ao expressarmos nossos sentimentos com clareza há uma facilitação da conexão com os outros. A manifestação dos nossos sentimentos nos coloca em posição de vulnerabilidade, o que contribui para a resolução de conflitos.

 

  • Necessidades: quais as necessidades relacionadas aos sentimentos identificados nesta situação? (necessidades de todas as partes envolvidas)

Rosenberg define a violência como algo que surge devido a uma necessidade não atendida. Por trás dos nossos sentimentos estão as nossas necessidades, e somente com presença e atenção poderemos nos responsabilizar pelos nossos sentimentos, e também pelas nossas necessidades, que não serão satisfeitas às custas dos outros.

 

  • Pedido: o que quero da outra pessoa? O que a outra pessoa quer de mim?

A clareza ao falarmos o que desejamos torna maior a probabilidade de que o pedido seja atendido. Um pedido é um pedido, e não uma exigência, quando deixamos claro para quem nos ouve que não há uma obrigação em atender esse desejo, que isso acontecerá apenas se for da sua vontade.

A reformulação da linguagem, da nossa expressão e da forma como ouvimos o outro, seria possível a partir do momento que nos colocamos presentes nas nossas relações, sem reagir de forma mecânica, automática ou repetitiva. A presença consciente em cada relação permite a observação cuidadosa e a consequente identificação da situação, sem usar de interpretação e julgamento. E assim podemos aprender respondendo às nossas interações de forma consciente, a partir da percepção do que necessitamos e também do que sentimos, da mesma forma que podemos também identificar as necessidades e sentimentos do outro. Com essa observação é possível formular um pedido claro, como um pedido, e não como uma exigência a ser atendida pelo outro.

 

Nas palavras de Rosenberg (2006, p. 26) “À medida que mantivermos nossa atenção concentrada nessas áreas e ajudarmos os outros a fazerem o mesmo, estabeleceremos um fluxo de comunicação dos dois lados, até a compaixão se manifestar naturalmente: o que estou observando, sentindo e do que estou necessitando; o que estou pedindo para enriquecer a minha vida; o que você está observando, sentindo e do que está necessitando; o que você está pedindo para enriquecer sua vida…”

O estar presente ao que está acontecendo favorece a compreensão de cada componente da CNV, e a compaixão “inevitavelmente floresce quando nos mantemos fiéis aos princípios e ao processo da CNV” (Rosenberg, 2006, p. 24). Nessa linguagem vemos uma expressão do cuidado, da compaixão e da autocompaixão, ao acompanhar os quatro componentes, na aceitação do momento presente, entendendo que não somos únicos ao viver uma realidade, que todas as aflições que sentimos são universais, não são um fenômeno exclusivo individual e pessoal. Todos nós observamos (e avaliamos) uma situação. Todos nós temos necessidades. Todos nós temos sentimentos. Todos nós temos desejos de enriquecer as nossas vidas de alguma maneira e para isso formulamos pedidos. Compaixão e autocompaixão florescem nesse processo de entender que todos os seres humanos, incluindo nós mesmos, passam por dificuldades e merecem cuidado e bondade.

Para finalizar trazemos um convite à reflexão a partir de Armstrong (2012, p.110) em um dos passos para a compaixão, que se encaixa nessa proposta, como uma busca da percepção da forma como falamos com os outros. Ao buscarmos essa reflexão podemos nos abrir para o estar presente e para a compaixão.

 

“- Quando discute, você fica empolgado com sua habilidade e deliberadamente ofende seu opositor?

– Você parte para o ataque pessoal?

– Os pontos que você obtém contribuem para o entendimento ou agravam ainda mais uma situação delicada?

– Você realmente escuta seu opositor?

– O que aconteceria se – discutindo um assunto trivial, sem graves consequências – você se deixasse derrotar?

– Depois de uma discussão acirrada, examine sua participação: você realmente pode sustentar tudo que disse no calor do momento?

– Você realmente sabia do que estava falando ou falava por “ouvir dizer”?

– E, antes de entrar numa discussão ou num debate, pergunte a si mesmo, honestamente, se está disposto a mudar de ideia.”

Autora: Renata Gomes Netto

 

Quer fazer parte dessa rede? Entre em contato com a gente em redeconectta@gmail.com

ARMSTRONG, K. 12 passos para uma vida de compaixão. São Paulo: Paralela, 2012.

GERMER, C. K.; MORGAN, W. D.; MORGAN, S. T. Cultivar a atenção e a compaixão. In: GERMER, C. K.; SIEGEL, R. D.; FULTON, P. R. Mindfulness e Psicoterapia. 2. Ed. Porto Alegre: Artmed: 2016.

GILBERT, P. Introduction to compassion focused therapy. Advances in Psychiatric treatment, 5, 199-208. 2009.

ROSENBERG, M. B. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.