Casamento Gay, Racismo e Obamacare: o desafio do cuidar

Minha mulher chorou esta manhã ao ler em seu celular a notícia de que a Suprema Corte havia reconhecido o direito ao casamento gay. Ela me deu a notícia com a voz embargada, e eu imediatamente chorei e fiquei emocionado, enquanto refletia as notícias de volta para ela. “Tanto sofrimento desnecessário por tantos anos”, ela disse corretamente. Eu assenti e apreciei mais uma vez o bom coração de minha esposa.

Nós temos feito muito isso ultimamente. Nós nos emocionamos com a notícia de que o Obamacare tinha resistido ao último round de ataque e milhões de pessoas agora teriam seu seguro de saúde. Nós nos emocionamos com a notícia do assassinato em massa em Charleston.

Tanto sofrimento desnecessário. O conteúdo é muito diferente, como são as razões específicas para as emoções, mas num sentido profundo, as três situações mostram o desafio que enfrentamos como comunidade humana.

Nós temos um problema psicológico em nosso país e em nosso mundo. Superficialmente, ele surge como racismo, homofobia ou desconsideração com os problemas dos pobres. Eu tenho visto comentaristas na TV se perguntarem o porquê. Aqui um pouco da resposta: A mente humana é programada para responder com empatia, mas não com um senso de humanidade comum ou uma abertura para a dor.

As três são necessárias: empatia, humanidade e abertura. Apenas uma já vem programada. Isso é um problema. Mesmo os animais não-humanos respondem com medo quando visualizam o medo. Por todo o nosso sistema nervoso, neurônios-espelho respondem ao drama alheio tanto quanto o faria se fosse o nosso próprio drama. Sofremos quando vemos sofrimento. O cérebro humano é especialmente social. James Coan, um pesquisador de Neurociência Afetiva da Universidade de Virginia, tem uma maneira agradável de dizer isso: o cérebro humano é nós, não eu.

Há uma razão simples para isso. Os humanos evoluíram em bandos e tribos, e o bem do grupo requer que sejamos sensíveis aos apuros alheios. Mas veja a loucura: se você vê a dor dos outros, e a participação deles no grupo não está obviamente ligada a você, você pode aparentemente reduzir a dor de vê-los em sofrimento definindo-o como "outros".

Você pode atacar a humanidade comum deles. É por isso que uma reação de empatia pode levar as pessoas a mais preconceito e despersonalização dos outros. Os gays são o "outro".

O homem negro correndo pelo gramado para evitar ser baleado nas costas por um policial é o "outro". A pessoa pobre sentada no pronto-socorro é o "outro". Não porque nós não nos importemos, mas justamente porque nós o fazemos, e isso é doloroso.

Desumanização "resolve" o nosso problema de empatia pré- programada, porque ela retira aqueles do nosso grupo. As lágrimas não precisam ser derramadas. Eles não são como nós. Como Donald Trump disse há poucos dias, imigrantes indocumentados são, em sua maioria, pessoas más, criminosos e estupradores. Eles não são como nós.

Alguns anos atrás, um estudo mostrou que, se você souber que a dor do holocausto permanece em famílias judias até hoje, o preconceito contra os judeus aumentará, em vez de diminuir, se você não puder se afastar mentindo a respeito. Eles são o "outro". Eles provavelmente mereceram. Em uma distorção maluca, se você puder se afastar através da mentira, então saber da dor atual do povo judeu pelo holocausto também levaria a reivindicações de menos preconceito. Em outras palavras, você então mente para evitar ver essa forma de autodefesa, talvez até para si mesmo.

No mundo moderno, você não pode evitar a empatia. É só ligar a TV. O resto está plugado. Mas no mundo moderno interconectado, você também simplesmente não pode pagar o preço da definição auto- reconfortante das pessoas que sofrem como "outro". Nós não podemos ter uma sociedade justa, pacífica e diversificada se a vida dos negros não importa. Nós não damos conta de um sistema de saúde se tivermos que pagar pelos cuidados de saúde de rotina dos que não possuem seguro através dos atendimento de emergência. Todos seremos afetados. Nós já não vivemos mais em pequenos bandos e tribos. Isso leva ao último processo que sabemos ser crítico: abertura. Se eu não for resolver a dor de se importar negando a humanidade comum, o que é que eu vou fazer com isso?
Bem, que tal sentir essa dor? Fique com ela. Aprenda com ela. Faça algo saudável com ela.

Trabalhe para reduzir o racismo, pobreza ou preconceito
contra os gays. Temos demonstrado com nossas pesquisas que você não vai desfrutar da companhia dos outros, e vai despersonalizá-los e desumanizá-los, se você não pode estar com sua própria dor.

O problema é que o mundo moderno é incrivelmente pobre em ensinar as pessoas a se abrirem. Há lampejos de esperança cultural (o filme "Divertida Mente", por exemplo, ou o recente interesse em Mindfulness), mas ela está sendo sufocada por produtos comerciais utilizados para amortecer os sentimentos: álcool, materialismo, uso excessivo de medicamentos, só para citar alguns.

Se é verdade que a empatia é acionada e amplificada pelos meios de comunicação modernos, nós precisamos fazer as duas coisas mais difíceis para adequá-la.

1. Aumentar o senso de humanidade comum. Por exemplo, certifique-se as vítimas tenham voz. Histórias de casais homossexuais comprometidos sendo forçados a viver fora da lei rapidamente mudaram a opinião pública. "Eles" se tornaram "nós". Faça isso. Mas o que é mais necessário e menos usual:

2. A mídia e os cientistas comportamentais precisam ensinar as pessoas a conviverem com a dor e fazer algo saudável com ela. Ensine as pessoas a sentirem mais plenamente, e esses problemas vão melhorar. Nós demonstramos isso através de
pesquisas controladas.

3. Racismo, homofobia e desrespeito com os pobres são apenas exemplos de um conjunto comum de processos. Temos um problema psicológico em nosso país e em nosso mundo. Conhecemos alguns deles. É tempo de resolvê-los.

Texto escrito por Steven c. Hayes Publicado Originalmente no The Huffinton Post e Traduzido Por Mônica Valentim

Mônica Valentim
Terapeuta Comportamental Contextual