A relação entre Mindfulness no Budismo e na Ciência

Já faz um tempo que me dedico a este assunto, tendo publicado internet afora textos sobre o tema. É um tema delicado, que merece uma apreciação longa. Contudo, farei um esforço para ser sucinto.

As pessoas, em geral, associam mindfulness com meditação. Esta não é uma associação indevida, mas deve ser feita com cautela. Em outro texto aqui do Conectta a Érika já falou sobre como mindfulness pode ser entendido enquanto parte da própria condição humana, e não um elemento ou prática necessariamente religiosa ou ligada a alguma cultura.

Acontece que o termo mindfulness ficou muito popular devido ao sucesso de programas seculares (não-religiosos) como o Mindfulness Based Stress Reduction (MBSR), desenvolvido por Jon Kabat-Zinn, na Universidade de Massachussets, nos USA. Este é um programa de medicina comportamental voltado para a redução de estresse, tendo seu início nos anos 80. Portanto, existe há mais de 3 décadas. Desde então, existem diversos programas similares, com propósitos semelhantes.

Apesar de seculares, estes programas (como o MBSR) foram desenvolvidos com inspiração em práticas que podemos denominar “contemplativas”, em particular a Yoga e o Zen Budismo. Nestas Intervenções Baseadas em Mindfulnes (MBIs) temos uma adaptação de práticas culturalmente denominadas de “espirituais” para um contexto de saúde. Deste modo, utliza-se (utiliza-se) uma linguagem explicitamente menos religiosa, e mais “médica” ou “psicológica”. As práticas ensinadas nestes programas são muito similares, na forma, àquelas ensinadas em contexto religioso, tais como meditação sentada e silenciosa (ou caminhando) e movimentos oriundos da Yoga. Estes “exercícios” são ensinados nas MBIs sem vinculação ritualística, metafísica ou ética com as tradições de onde foram originalmente retiradas. Por um lado isto é uma vantagem, pois universaliza a linguagem e assenta as práticas em uma ética humana-secular. Por outro, pode apresentar riscos de distorções e reducionismos. O maior risco, no entanto, é o esvaziamento ético, onde as práticas são apresentadas desvinculadas de um cabedal de valores humanos. Neste sentido, mindfulness pode ser ensinado como mero treino atencional ou de flexibilidade psicológica. A crítica recai, sobretudo, quando pensamos que mindfulness pode ser utilizado para treinar a eficiência de um atirador de elite ou para estabilizar a atenção de um CEO tirano que almeja explorar com maior eficiência os funcionários de sua empresa.

O mindfulness, apesar de popularmente associado a estas MBIs, tem uma trajetória curiosa e complexa. Desde o século XIX, o termo mindfulness esteve associado com a tradução para a língua inglesa de práticas budistas diversas, tais como shamata e zazen, cada qual correspondente a um tipo de tradição budista. Essas práticas, que acontecem dentro de um contexto religioso, estão geralmente associadas ao exercício de estabilização da atenção, e não são MBIs. São práticas budistas que acontecem dentro de um contexto doutrinário e ético, independente da tradição budista. Toda e qualquer prática budista, da mais simples até a mais complexa, somente existe dentro de um amplo universo que envolve uma metafísica e uma dimensão soteriológica (de salvação – p.ex. nirvana, samsara, iluminação, superar o ciclo de renascimentos, purificar o carma, etc). Nos programas de saúde, como o MBSR e as demais MBIs, os objetivos são “menores”, restringindo-se à promoção de saúde, ou à condições específicas (como é o caso do MBCT, desenvolvido para o tratamento da depressão).

Dentro do universo científico da prática de mindfulness há também duas outras vertentes, para além das MBIs. Uma deles é o mindfulness dentro das psicoterapias contextuais, que podem ser compreendidas como parentes próximos das psicoterapias cognitivo-comportamentais. Diferente das MBIs que acontecem, em geral, em grupos e com duração aproximada da (de) 8 semanas, nas psicoterapias mindfulness pode ser treinado individualmente. Na maioria delas, como na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), na Terapia Analítica Funcional (FAP) e na Terapia Metacognitiva, mindfulness é entendido como um processo psicológico, e não como uma prática meditativa. A prática do tipo meditativa é compreendida como um tipo de exercício (dentre muitos outros) que pode facilitar processos de mindfulness. Mas a Terapia Dialética Comportamental (DBT), que faz parte da mesma família de psicoterapias contextuais, entende mindfulness tanto como prática de meditação quanto processo psicológico. Assim, a DBT, como as MBIs, inserem mindfulness neste universo de dupla-pertença – espiritual e científico.

Esse hibridismo espiritual/científico pode gerar alguma confusão, tanto para o “professor” ou “terapeuta” quanto para os participantes, já que pode não ficar claro o assentamento ético, linguístico e conceitual dos procedimentos adotados. Esse é um risco assumido tanto pelas MBIs quanto pela DBT, e tem gerado inúmeros debates na literatura especializada. O que está sendo ensinado? Budismo? Treino psicológico/comportamental? Ambas as coisas? Seria o “terapeuta” uma espécie de monge científico? Caso afirmativo é importante assegurar-se das variáveis implicadas no processo de melhora dos participantes, já que valores espirituais podem afetar (em geral, positivamente) o ganho de benefícios advindos do mindfulness. Mas isso também pode gerar imposturas e abrir espaço para que “gurus” não-religiosos e coachs se aproveitem dessa “licença new-age” que emergiu com o movimento mindfulness. É preciso ter critério e observar com parcimônia o processo de formação desses “terapeutas” de mindfulness. São monges? São cientistas? Há coerência no que ensinam? Todas as manifestações de mindfulness são legítimas, mas é necessário ter clareza acerca do que se faz e do que é oferecido – em termos de promessas – para as pessoas que procuram este tipo de treinamento (ou tratamento). Será que quando se busca um mindfulness espiritual não seria adequado que as pessoas sejam encaminhadas para os monges, simplesmente? Penso que sim.

Por fim, há um tipo de mindfulness totalmente assentado na tradição científica, sem qualquer tipo de referência ao Budismo ou às tradições contemplativas. Quem trabalha com essa versão 100% secular do mindfulness é a psicóloga norte-americana Ellen Langer. Para Langer, mindfulness é um processo de abertura atencional que contrabalança nosso estado de devaneio ou desatenção. Quando Langer começou a escrever sobre mindfulness, Jon Kabat-Zinn estava escrevendo sobre o MBSR. Langer assentada na tradição psicológica, ocidental, e Kabat-Zinn na dupla-pertença, médica e contemplativa.

Por fim, é importante salientar essa existência de uma dimensão puramente psicológica, ocidental, de mindfulness, que se faz notar nas tradições científicas de Langer e da ciência contextual, como em Hayes (ACT). Há também uma dimensão puramente religiosa, tal qual mindfulness é ensinado no Budismo, independente da tradição. Por fim há essa região mais nebulosa, de interseção entre ciência e religião, representada pelas MBIs e pela DBT. Quando eu utilizo “nebulosa” quero dizer complexa – e até mesmo – arriscada. Isso porque há certo esvaziamento de uma área em outra (científica na religiosa, e vice-e-versa), e o balanço entre o que é religioso e o que é científico fica, quase sempre, a cargo da postura do “instrutor” ou do “terapeuta”. Por isso é comum vermos alguns colegas que trabalham com mindfulness circulando através de conceitos, termos e condutas tanto religiosas quanto técnicas (da Psicologia ou da Medicina).

Novamente, os territórios de maior segurança são aqueles onde há absoluta clareza do que se está fazendo e entregando para a população. Por isso, é mais fácil avaliarmos a coerência de mindfulness quando estamos nos pólos, ou seja, na dimensão religiosa ou científica. Quando um monge tibetano está ensinando shamata/zazen ele está ensinando shamata/zazen, nada mais. Essa é a dimensão religiosa de mindfulness. Quando um cientista cognitivo está utilizando Langer para testar uma hipótese sobre tomada de decisão em um experimento, ele não está meditando. Essa é uma dimensão científica de mindfulness. Quando um terapeuta contextual está ensinando ao seu paciente uma técnica de desfusão cognitiva através de metáforas, ele está utilizando mindfulness e – assim como Langer – está dentro de um contexto puramente científico (psicológico). O terapeuta contextual também não está ensinando meditação, mas está trabalhando com mindfulness. Agora, quando um instrutor de MBSR está ensinando alguém a prestar atenção na respiração, sentado no chão, com as pernas cruzadas, e com um sino de meditação na mão, ele está neste território da dupla-pertença. Neste lugar, a clareza pode estar obscurecida; ele está ensinando shamata/zazen? Algo parecido com shamata/zazen? É shamata/zazen, mas não é? Não, não é shamata/zazen?

Daí desdobram outras questões: quem pode ensinar shamata/zazen? É necessária a autorização de um professor mais experiente para ensinar shamata/zazen? É necessário (re)incorporar a ética budista? Seria uma prática espiritual?

O mais importante é que todas as manifestações de mindfulness são legítimas, até mesmo os hibridismos espirituais/científicos, desde que tenhamos clareza. Não percamos a lucidez. E que o movimento mindfulness siga pleno, podendo levar saúde e discernimento, doravante seus limites.

Sobre o autor

Tiago Tatton

Psicólogo clínico, investigador do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e advanced teacher training em MBSR e MBCT pela UCSD (Univ. California in San Diego).

 

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2 comentários em “A relação entre Mindfulness no Budismo e na Ciência

  1. Gostei muito deste artigo. Deu uma organizada em alguns conceitos e esclareceu bastante.

  2. Excelente artigo. Ajudou a esclarecer muitos pontos nebulosos que me debato enquanto estudo sobre o tema. Muito obrigada!

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