Conectados com nossas intenções

 

Nossas intenções determinam o tom de nossas ações – desde as pequenas atividades do dia a dia até projetos de médio e longo prazos. Como a música, a intenção pode influenciar nosso humor, nossos pensamentos e sentimentos. E, ao longo do tempo, podemos tornar nossas motivações cada vez mais alinhadas com nossas intenções, com consciência e reflexão persistentes.

Nas atividades diárias ou em projetos que consideramos importantes, vale perguntar: o que motiva essa ação? Por que estou fazendo isso? Por que eu me sinto bem fazendo isso? Quais das minhas necessidades são atendidas no momento da minha ação? Isso é benéfico só para mim ou também para os outros? Para agora ou para o futuro? Essas questões nos ajudam a esclarecer nossas motivações, porque trazem uma consciência crítica (no sentido de objetividade e critério, não de julgamento) para nossa relação com o que fazemos. Além disso, ter clara a nossa motivação é muito importante, pois nos ajuda a atuar com segurança e menos contaminados pelo medo.

O envolvimento cognitivo (consciência) é importante e crucial no processo. Por meio dele, conectamos intenção (deliberação) e motivação. Há uma ligação crucial a ser observada – entre a nossa consciência da meta e da razão pela qual devemos persegui-la, nossos sentimentos sobre ela, e nosso desejo ou vontade de ir atrás do que queremos. O processo de estabelecer intenções e refletir sobre elas com alegria é a melhor maneira de transformar a motivação extrínseca (mais superficial) em intrínseca (mais estável e duradoura). E, portanto, de manter a energia e o propósito de viver realmente de acordo com as nossas melhores aspirações. A qualidade da motivação que levamos ao trabalho, às férias, à meditação, à rotina com os filhos ou a qualquer coisa se infiltra na própria natureza da ação.

Dessa forma, assumimos responsabilidade por nossos pensamentos e nossas ações. Nesse processo, observamos, identificamos, nomeamos e atendemos nossas necessidades. Repensamos e (re)construímos nossos valores. Conseguimos agir de forma bondosa, honesta, generosa e compassiva. E assim, de maneira simples, aprendemos a cultivar a compaixão e adotar uma comunicação não-violenta, conosco e com os outros. Marshall Rosenberg, psicólogo americano criador do conceito de comunicação não-violenta, diz que uma necessidade não reconhecida e não satisfeita pode ser manifestada de maneira trágica. Por outro lado, quando estamos bem com nós mesmos, nutridos de bem-estar, equilíbrio e felicidade interna, conseguimos colocar a compaixão em contato com nossos pensamentos e ações. Em vez de muros, criamos pontes.

É um processo de retroalimentação construtiva. Quanto mais cultivamos nossa intenção, começa a surgir a motivação compassiva de maneira espontânea. O cultivo da compaixão, por sua vez, permite-nos desenvolver uma felicidade (mais interior do que exterior) que nos acompanha em momentos difíceis. E o processo de cultivo dessa felicidade requer compromisso, energia, tempo, clareza e conexão com nossa motivação. Abastecido com esses combustíveis, o corpo reage de forma diferente, com o coração preparando-o para agir. A força da motivação aumenta devido a um ciclo de desejo e recompensa – quando algo que fazemos é recompensador, queremos fazer de novo. Quando fazemos de novo, somos recompensados mais uma vez e nos sentimos motivados a repetir a ação.

Mas como fazer isso na prática e no dia a dia? Estabelecendo uma intenção pela manhã, criamos o tom do dia. Simples assim. Se estruturarmos nosso dia com os exercícios de intenção e de dedicação, podemos mudar a maneira como vivemos. No livro “Um coração sem medo”, Thupten Jinpa* recomenda uma prática chamada “estabelecendo a intenção”, uma espécie de checagem na qual nos conectamos com nossas aspirações mais profundas para que elas deem forma às nossas intenções e motivações. Você pode conferir esta prática* no fim deste texto.

E como fazer isso na prática de Mindfulness? Inevitavelmente, nossas mentes se distraem ao longo da meditação. Muitas vezes sentimos dificuldades em permanecer em estado de atenção plena. Como se estivéssemos em frente à TV e o controle remoto ganhasse vida própria e percorresse vários canais – nossos pensamentos e nossas emoções. Mas podemos recuperar o controle remoto e colocar no nosso colo. Basta lembrar o propósito para o qual isso tudo está sendo feito – intenção, motivação. Podemos revisitar a intenção da prática quando identificarmos a distração e recuperar o controle remoto.

No caso de Mindfulness com foco no cultivo da compaixão, só fará sentido se houver um desejo genuíno ou aspiração de liberar o mal-estar (nosso e do outro). Essa intenção é sempre voluntária e consciente. E ajuda a mente para que ela seja mais clara, mais sábia, mais compassiva. Dessa maneira, podemos fazer com que mindfulness, compaixão e comunicação não-violenta andem juntas. O cultivo da atenção plena nos dá clareza do que está vivo em nós – nossos sentimentos. E, por saber o que estamos sentindo, podemos identificar nossas necessidades. É importante voltar ao interior e, de forma honesta, estar em conexão com os sentimentos e identificá-los, de modo que floresça espontaneamente a intenção de satisfazê-los. Quanto mais estamos conectados com o sentimento e a necessidade, esse movimento nasce e então a intenção chega naturalmente, não se restringindo a algo mental. Ela surge de forma compassiva, natural, espontânea. Uma comunicação de paz, conexão e reconciliação. Mais uma vez – conosco e com os outros.

“Você é seu próprio inimigo e seu próprio salvador”, disse Buda. Nossos pensamentos, nossas emoções e nossas ações são as principais origens de sofrimento, mas também a maior fonte de alegria e de liberdade. Viver o máximo possível, com uma intenção consciente, é o primeiro passo para uma transformação. Vamos começar?
*****

*Prática “Estabelecendo a intenção”, do livro Um coração sem medo, Thupten Jinpa Você pode fazer este exercício assim que acordar. Também pode realizá-lo no ônibus ou no metrô; a caminho do trabalho; em sua mesa no escritório antes de começar o dia etc. Reserve de dois a cinco minutos, sem interrupção. Com os olhos fechados, faça três a cinco respirações longas e lentas. Inspire e expire profundamente. Quando se sentir mais calmo, contemple as seguintes perguntas: “O que eu valorizo profundamente? O que, no fundo do meu coração, desejo para mim mesmo, meus entes queridos e para o mundo?” Concentre-se um pouco nessas questões e veja se surge alguma resposta. Se não houver uma resposta específica, não se preocupe, apenas fique com as perguntas em aberto. Pode ser difícil se acostumar com isso, uma vez que, no Ocidente, em geral esperamos responder às perguntas que fazemos. Acredite que as próprias perguntas estão funcionando, mesmo – e especialmente – se não encontrar respostas prontas. Se e quando as respostas surgirem, reconheça-as e preste atenção a quaisquer pensamentos e sentimentos que elas possam trazer. Por último, desenvolva um conjunto de pensamentos como sua intenção consciente – para o dia de hoje, por exemplo. Você pode pensar: “Hoje, que eu esteja mais consciente do meu corpo, da minha mente e das minhas palavras quando interagir com os outros. Que eu evite ao máximo ferir os outros deliberadamente”. Tente encontrar oportunidades durante o dia para checar suas intenções identificadas na parte da manhã.

 

Por Viviane Fukugawa

 

*Sobre Thupten Jinpa
Nasceu no Tibete em 1958. Ex-monge tibetano, possui um Ph.D. na Universidade de Cambridge, além de ser titular da cadeira de Estudos Religiosos na Universidade McGill e presidente do Mind and Life Institute, dedicado a promover diálogos entre a ciência e o conhecimento contemplativo. Desde 1987 é tradutor e intérprete do Dalai Lama, já tendo traduzido e editado mais de dez livros do líder espiritual. Jinpa mora em Montreal, no Canadá, com a esposa e as filhas.

Solidão -Autocompaixão e as Conexões humanas

”Os seres humanos são criaturas sociais, e sentir-se valorizado pelos outros é a própria base da vida” – Dalai Lama

Você sabia que solidão afeta nossa saúde tanto quanto o  cigarro? E que a solidão pode sinalizar ao nosso cérebro que nosso corpo está sob estresse e provocar reações  como o aumento da pressão arterial e o colesterol, e a ainda perturba o sono, aumenta a depressão e diminui a sensação geral de bem-estar ?Trata-se de uma dor em nosso “corpo social” que precisa ser remediada se quisermos levar uma vida saudável. A vigilância constante que uma  ameaça  desse tipo exige está associada a níveis muito mais alto

os de cortisol pela manhã, com o tempo a solidão prolongada prejudica nosso equilíbrio hormonal e danifica o sistema nervoso

(JINPA,T. 2015).

Ou seja, a relação entre solidão e suas consequências para a saúde física e emocional e mental são complexas; cada um de nós tem uma certa expectativa de estar com os outros que nós herdamos de nossos pais e de nosso ambiente de conexão socialial com os quais nos sentimos confortáveis. Isso explica por que nem todos são igualmente sensíveis ao sentimento de solidão, temos necessidades  e expectativas diferentes em nossos relacionamentos com os outros.

E se formos falar  do  impacto da solidão na saúde nos idosos, isso chama mais atenção ainda, mas não é muito valorizado,  infelizmente.

A solidão é o estado de quem se sente só, traduz isolamento. (FERNANDES; LUFT; GUIMARÃES, 2000). A solidão provoca um sentimento de vazio interior, que pode estar presente no ser humano nas diferentes fases da vida, e tende a ser mais frequente com o envelhecimento. Fatores psicológicos e sociais parecem estar relacionados com o seu surgimento, como a depressão, o luto, o isolamento social e o abandono. (GOLDFARB, 1998; GUIDETTI; PEREIRA, 2008; WORDEN, 1998). A população mundial de idosos está crescendo continuamente e a solidão interfere na qualidade de vida da pessoa, que se priva do convívio, empobrecendo o conhecimento adquirido no contato social e afetando as atividades de vida diária. (LITVOC; BRITO, 2004; PAPALÉO NETTO, 2002).

Foi  realizado  um   estudo do Centro de referência de Geriatria e Gerontologia da Universidade  Federal Fluminense Campus Mequinho e o Setor Ambulatorial Geriátrico do Hospital Universitário Antônio Pedro.   O objetivo foi avaliar o impacto da solidão em idosos, foram avaliados 132 pacientes com sessenta anos ou mais. Observou-se nesta pesquisa que as mulheres se sentem mais solitárias que os homens. Isso pode ser justificado pelo estado civil, visto que a maioria das mulheres entrevistadas era constituída de viúvas e a dos homens descasados. Porém,  mesmo analisando os casados, as mulheres tendem a sentir mais solidão que os homens. Mesmo com o envelhecimento, o sentimento de solidão continua se diferenciando por gênero. Em virtude de um maior período de vida da mulher e da consequente feminização da velhice, o número de viúvas é maior do que o de viúvos. O resultado da conjunção desses dois fatores é um período mais extenso de solidão das mulheres viúvas (ou separadas) em relação aos homens. (VERAS, 1988).  As de oitenta anos ou mais se sentem mais solitárias que homens de oitenta anos ou mais. Parece que o sentimento de solidão é sentido mais em mulheres do que em homens pela forma de construção e expressão do afeto diferente entre os sexos. Entretanto, isso não minimiza a importância da investigação desse sentimento em homens e mulheres, visto que os problemas de saúde nos idosos, causados por patologias múltiplas, são agravados pela solidão. A “solidão que dói” descrita em homens solteiros, divorciados e viúvos foi associada a maior suscetibilidade a doenças como hipertensão, problemas cardíacos, câncer na garganta e pneumonia. (WAITE; GALLAGHER, 2001).

Peplau, Bikson e Goodchuilds ( 1982), sugerem que a solidão pode ser mais severa na velhice, porque as pessoas mais velhas são menos otimistas e eles podem atribuir a essa fase da vida como o fator solidão um fator irreversível, sugerindo que a solidão será mais prevalente na idade avançada.

Observamos a necessidade de gerarmos mais conexões sociais  entre o seres  humanos, e uma das possibilidades em aprendermos a  desenvolver essa habilidade e o manejo da solidão são as  as práticas de mindfulness e autocompaixão.

A compaixão contribui para relacionamentos melhores. A bondade age como uma cola que mantém os vínculos com nossos entes queridos intactos e acaba sendo um fator protetor contra rompimentos desnecessários. Pesquisadores descobriram que a conexão social fortalece o sistema imunológico e a bondade como fator chave para a criação e manutenção de nossas relações sociais, ou seja, ajuda a nos manter saudáveis. A compaixão é uma grande ferramenta contra a solidão que é uma das mais dolorosas formas de sofrimento humano. O cultivo da compaixão ajuda a criar vínculos, esse sentimento dissolve as barreiras que  nos fazem   nos sentir isolados.( JINPA, T 2015 ). Um estudo na Universidade de Chicago acompanhou mais de 2 mil pessoas acima  de 50 anos pelo período de seis anos e descobriu que a solidão extrema tem o dobro de  chance que a obesidade e a hipertensão tem de ser a causa de morte em idosos, os que relataram se sentir solitários tinham um risco 14%  mais  alto de morrer.

Em outro estudo realizado na Universidade Estadual na Turquia, com 398 estudantes universitários, foi aplicada a escala de autocompaixão e escala de solidão.  Encontraram  na análise de correlação auto bondade, humanidade compartilhada e fatores de atenção plena e autocompaixão de forma negativa relacionados a solidão.

Por outro lado, os fatores de autojulgamento, autocrítica, isolamento social foram encontrados positivamente correlacionados a solidão. Esta pesquisa mostra que autocompaixão tem impacto direto na solidão.

A autocompaixão envolve ser bondoso e gentil  em relação a si mesmo diante das dificuldades ou nas inadequações percebidas, reconhecendo o sofrimento  e que  todas as pessoas  são dignas de compaixão ( Neff,2003). A autora ainda propõe  que a autocompaixão três componentes principais:  (1) auto bondade versus auto julgamento, ( 2) senso de humanidade (3) atenção plena e identificação com os pensamentos e emoções.

A postura de auto bondade, refere a ser gentil e compreensivo consigo mesmo em casos de dor ou falhas ao invés de ser autocrítico . A compaixão por si mesmo implica ser menos autocrítico consigo mesmo quando as expectativas não são atendidas, ao invés disso a autocompaixão sugere o individuo tenhar mais paciência e para ajudar a   mudar o comportamento ( Neff, 2003). Já no componente da humanidade compartilhada,  o indvíduo tem a chance de perceber  as próprias experiências felizes ou dolorosas não como pessoais, mas como uma experiência humana, o princípio  da humanidade comum para a autocompaixão envolve reconhecer que todos os seres humanos são imperfeitos e que cometem erros( Neff, 2009),   Tendo essa consciência, percebemos essas experiências como parte da experiência humana, consequentemente fazendo nos sentir menos isolados e alienados da sociedade. Mindfulness, um outro componente da autocompaixão, é uma consciência que permite que o indivíduo aceite  as emoções mais dolorosas da vida, sem ser levados por elas. A atenção plena é um estado  de consciência que regula os sentimentos e pensamentos, que são observados sem evitá-los ou tentativas de mudanças, sem julgamento. Quando os indivíduos aceitam essas emoções e a dor e quando são gentis com suas emoções e não evitando suprimi-las, assim quando eles estão conscientes de que o sofrimento e a dor são algo que todos os seres humanos experimentam, eles aprendem a não ter essa identificação excessiva, e a autocompaixão funciona como uma estratégia adaptativa para a organização das emoções negativas criando emoções mais funcionais com acolhimento e bondade. ( Neff, Hsieh e Dejitterat,2005). Esse estudo sugere o encorajamento das práticas autocompassivas podem ser benéficas para reduzir a solidão, além disso, encorajando  o desenvolvimento  dessas habilidades para o indivíduo se tornar uma pessoa mais gentil consigo mesmo, ajudando a diminuir a autocrítica e a tendência a reconhecer a sua interligação com os outros e lidar com suas emoções com mais clareza e equanimidade ( Nef , 2003). Ainda podemos perceber que  a  autocompaixão tem impacto direto com a solidão, porque pessoas com autocrítica exagerada, isolamento, e identificação com seus pensamentos e emoções, são mais prováveis  de  serem solitárias, comparadas aquelas mais compassiva, com  senso da humanidade compartilhada e atenção plena, concluindo essa relação compaixão e solidão.

Ainda existem poucos estudos com esse tema, mas percebo a necessidade de investigar mais, pois a solidão como foi  dita acima interfere diretamente na qualidade de vida e bem- estar  do ser humano. 

Referências:

Ahmet AKIN- Self-compassion and Loneliness-International Online Journal of Educational Sciences, 2010, 2 (3), 702-718

FERNANDES, F.; LUFT, C. P.; GUIMARÃES, F. M. Dicionário Brasileiro Globo. 53. ed. São Paulo: G lobo, 2000.

GOLDFARB, L. C. Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.

GRIFFITHS, R. A. et al. Depression dementia and disability in the elderly. British Journal of Psychiatry, v. 150, s. n., p. 482- 493, 1987.

GUIDETTI, A. A.; PEREIRA, A. S. A importância da comunicação na socialização dos idosos. Revista de Educação, São Paulo, n. XI, n. 11, p. 119-136, 2008.

LOPES, F . RENATA;LOPES T.F MARIA; CAMARA D. VILMA – Entendendo a Solidão- Rev. Brasileira de envelhecimento Humano, Passo Fundo, v. 6, n. 3, p. 373-381, set./dez. 2009

LITVOC, J.; BRITO, F. C. Envelhecimento: prevenção e promoção da saúde. São Paulo: Atheneu, 2004. PAPALÉO NETTO, M. Gerontologia: a velhice e o envelhecimento em visão globalizada. São Paulo: Atheneu, 2002.

NEFF, K. D. (2003a). Self-compassion: An alternative conceptualization of a healthy attitude

toward oneself. Self and Identity, 2(2), 85102.

NeFF, K. D. (2003b). The development and validation of a scale to measure self-compassion.

Self and Identity, 2(3), 223250.

THUPTEN, J-   Um coração sem medo- Editora Sextante-, 2016

VERAS, R. P. Considerações acerca de um jovem país que envelhece. Cadernos de Saúde Pública, São Paulo, v. 4, n. 4, p. 382-397, 1988

WORDEN, J. W. Terapia do luto. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

. WAITE, L. J.; GALLAGHER, M. The case for marriage: why married people are happier, healthier, and better off financially. Broadway, 272 f.; October 9, 2001

 

Por Marcia Paviani

Psicologa Clinica

Mindfulness em família

Criar um filho exige grande dedicação e um arsenal de recursos, do nascimento até a idade adulta, por isso a maternidade e a paternidade são fonte inesgotáveis de estresse.

Além disso, os pais são confrontados diariamente com a imagem idealizada da maternidade e paternidade que construiriam ao longo de sua trajetória, o que leva muitos pais a terem sentimentos de culpa e inadequação quando sentem que falharam frente aos seus altos padrões de exigências irreais.

O primeiro passo para introduzir mindfulness para as crianças, é o reconhecimento e a aceitação dos pais de que a maternidade e a paternidade exigem muito e são estressantes, mas é possível enfrentar com autocompaixão. A pergunta deve ser: Qual a melhor forma de eu cuidar de mim mesmo? Ao invés de “O que estou fazendo de errado como mãe/pai?” (Bögels,S. & Restifo, K., 2015)

Uma forma possível para os pais se tratarem com carinho é desacelerar o ritmo e desligar o piloto automático. Desacelerar a vida em geral parece ser um tema bastante discutido recentemente, o que é algo simples e de extrema importância para os pais.

Quando diminuímos o ritmo, abrandamos as coisas, então ao recuar e observar as próprias reações é possível ter uma nova perspectiva e reestruturar efetivamente rotinas da família.

Definir rotinas que duram poucos minutos por dia como fechar os olhos e notar a sua respiração, seus pensamentos, suas emoções e sensações do corpo, com bondade e curiosidade, tem um grande impacto em toda a família.

Há ciência para mostrar que respirar profundamente e ficar calmo quando os filhos estão em um momento difícil realmente causa mudanças positivas no cérebro.

 

Para Daniel Siegel e Tina Bryson (2011), os pais podem moldar diretamente o crescimento do cérebro dos filhos conforme as experiências que oferecem e sugerem 12 estratégias eficazes para ajudar os filhos nessa experiência.

Dentre as estratégias sugiro duas estratégias que introduzem o mindfulness para as crianças:

  1. EXAMINAR: a indicação é para que os pais ajudem os filhos a desenvolverem a consciência falando sobre seus mundos internos. Pode-se fazer perguntas para que percebam sensações corporais como por exemplo: “você está com fome?”, perguntas que despertam a consciência das imagens mentais como por exemplo: “o que você imagina quando pensa na casa da vovó?”, perguntas sobre sentimentos como por exemplo: “como se sente quando perde o jogo?” e também perguntas sobre seus pensamentos como: “o que você acha que acontecerá amanhã na escola?”.

 

  1. EXERCITAR A VISÃO MENTAL: esta estratégia ensina as crianças a se acalmarem sozinhas e a focarem a atenção onde quiserem. Peça seu filho para que ele se deite de costas e coloque um brinquedo, bichinho de pelúcia que ele goste em cima da barriga dele. Mostre-lhe como respirar lenta e profundamente faz o brinquedo subir e descer. Deixe-o experimentar a sensação de ficar parado, quieto e tranquilo.

 

“A natureza de uma criança é brincadeira, então deixe-a brincar! A sua natureza era brincadeira, mas você deixou de brincar e a perdeu! Meditação em sua essência é brincadeira. Esta brincadeira já é a técnica para toda criança, não interfira nesse brincar. Apenas conecte com a criança que existe dentro de você.” Siddhartha

Proporcione momentos lúdicos em família, com atenção plena pois estar presente no momento é fundamental para experimentar a vida ao máximo.

A prática de mindfulness em família também proporciona maior interação entre pais, filhos e irmãos. Aproveite todas as oportunidades durante a rotina diária para implementar doses de atenção plena, veja algumas sugestões:

  • Refeições: Durante as refeições peça ao seu filho para observar as características do alimento (talvez até ajudando no preparo e observando as diferenças entre o alimento cru e cozido), cores, aromas, sabor e mastigação.
  • Banho: Peça que seu filho ao tomar banho perceba todas as sensações da água, shampoo, sabonete em seu corpo.
  • Conflitos entre irmãos: Boa oportunidade para usar o jogo de “examinar”.
  • Diversão: Inclua brincadeiras como “mímica” e “telefone sem fio”.

 

Veja o vídeo abaixo de uma criança contando sobre sua experiência em usar a atenção plena (mindfulness) durante as refeições:

 

 

 

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BÖGELS, s. & RESTIFO, K. Mindful Parenting: A guide for mental health practitioners. New York: Springer New York, 2015.

SIEGEL, D.J. & BRYSON, T.P. O cérebro da criança. São Paulo: nVersos. 2014.

 

Casamento Gay, Racismo e Obamacare: o desafio do cuidar

Minha mulher chorou esta manhã ao ler em seu celular a notícia de que a Suprema Corte havia reconhecido o direito ao casamento gay. Ela me deu a notícia com a voz embargada, e eu imediatamente chorei e fiquei emocionado, enquanto refletia as notícias de volta para ela. “Tanto sofrimento desnecessário por tantos anos”, ela disse corretamente. Eu assenti e apreciei mais uma vez o bom coração de minha esposa.

Nós temos feito muito isso ultimamente. Nós nos emocionamos com a notícia de que o Obamacare tinha resistido ao último round de ataque e milhões de pessoas agora teriam seu seguro de saúde. Nós nos emocionamos com a notícia do assassinato em massa em Charleston.

Tanto sofrimento desnecessário. O conteúdo é muito diferente, como são as razões específicas para as emoções, mas num sentido profundo, as três situações mostram o desafio que enfrentamos como comunidade humana.

Nós temos um problema psicológico em nosso país e em nosso mundo. Superficialmente, ele surge como racismo, homofobia ou desconsideração com os problemas dos pobres. Eu tenho visto comentaristas na TV se perguntarem o porquê. Aqui um pouco da resposta: A mente humana é programada para responder com empatia, mas não com um senso de humanidade comum ou uma abertura para a dor.

As três são necessárias: empatia, humanidade e abertura. Apenas uma já vem programada. Isso é um problema. Mesmo os animais não-humanos respondem com medo quando visualizam o medo. Por todo o nosso sistema nervoso, neurônios-espelho respondem ao drama alheio tanto quanto o faria se fosse o nosso próprio drama. Sofremos quando vemos sofrimento. O cérebro humano é especialmente social. James Coan, um pesquisador de Neurociência Afetiva da Universidade de Virginia, tem uma maneira agradável de dizer isso: o cérebro humano é nós, não eu.

Há uma razão simples para isso. Os humanos evoluíram em bandos e tribos, e o bem do grupo requer que sejamos sensíveis aos apuros alheios. Mas veja a loucura: se você vê a dor dos outros, e a participação deles no grupo não está obviamente ligada a você, você pode aparentemente reduzir a dor de vê-los em sofrimento definindo-o como "outros".

Você pode atacar a humanidade comum deles. É por isso que uma reação de empatia pode levar as pessoas a mais preconceito e despersonalização dos outros. Os gays são o "outro".

O homem negro correndo pelo gramado para evitar ser baleado nas costas por um policial é o "outro". A pessoa pobre sentada no pronto-socorro é o "outro". Não porque nós não nos importemos, mas justamente porque nós o fazemos, e isso é doloroso.

Desumanização "resolve" o nosso problema de empatia pré- programada, porque ela retira aqueles do nosso grupo. As lágrimas não precisam ser derramadas. Eles não são como nós. Como Donald Trump disse há poucos dias, imigrantes indocumentados são, em sua maioria, pessoas más, criminosos e estupradores. Eles não são como nós.

Alguns anos atrás, um estudo mostrou que, se você souber que a dor do holocausto permanece em famílias judias até hoje, o preconceito contra os judeus aumentará, em vez de diminuir, se você não puder se afastar mentindo a respeito. Eles são o "outro". Eles provavelmente mereceram. Em uma distorção maluca, se você puder se afastar através da mentira, então saber da dor atual do povo judeu pelo holocausto também levaria a reivindicações de menos preconceito. Em outras palavras, você então mente para evitar ver essa forma de autodefesa, talvez até para si mesmo.

No mundo moderno, você não pode evitar a empatia. É só ligar a TV. O resto está plugado. Mas no mundo moderno interconectado, você também simplesmente não pode pagar o preço da definição auto- reconfortante das pessoas que sofrem como "outro". Nós não podemos ter uma sociedade justa, pacífica e diversificada se a vida dos negros não importa. Nós não damos conta de um sistema de saúde se tivermos que pagar pelos cuidados de saúde de rotina dos que não possuem seguro através dos atendimento de emergência. Todos seremos afetados. Nós já não vivemos mais em pequenos bandos e tribos. Isso leva ao último processo que sabemos ser crítico: abertura. Se eu não for resolver a dor de se importar negando a humanidade comum, o que é que eu vou fazer com isso?
Bem, que tal sentir essa dor? Fique com ela. Aprenda com ela. Faça algo saudável com ela.

Trabalhe para reduzir o racismo, pobreza ou preconceito
contra os gays. Temos demonstrado com nossas pesquisas que você não vai desfrutar da companhia dos outros, e vai despersonalizá-los e desumanizá-los, se você não pode estar com sua própria dor.

O problema é que o mundo moderno é incrivelmente pobre em ensinar as pessoas a se abrirem. Há lampejos de esperança cultural (o filme "Divertida Mente", por exemplo, ou o recente interesse em Mindfulness), mas ela está sendo sufocada por produtos comerciais utilizados para amortecer os sentimentos: álcool, materialismo, uso excessivo de medicamentos, só para citar alguns.

Se é verdade que a empatia é acionada e amplificada pelos meios de comunicação modernos, nós precisamos fazer as duas coisas mais difíceis para adequá-la.

1. Aumentar o senso de humanidade comum. Por exemplo, certifique-se as vítimas tenham voz. Histórias de casais homossexuais comprometidos sendo forçados a viver fora da lei rapidamente mudaram a opinião pública. "Eles" se tornaram "nós". Faça isso. Mas o que é mais necessário e menos usual:

2. A mídia e os cientistas comportamentais precisam ensinar as pessoas a conviverem com a dor e fazer algo saudável com ela. Ensine as pessoas a sentirem mais plenamente, e esses problemas vão melhorar. Nós demonstramos isso através de
pesquisas controladas.

3. Racismo, homofobia e desrespeito com os pobres são apenas exemplos de um conjunto comum de processos. Temos um problema psicológico em nosso país e em nosso mundo. Conhecemos alguns deles. É tempo de resolvê-los.

Texto escrito por Steven c. Hayes Publicado Originalmente no The Huffinton Post e Traduzido Por Mônica Valentim

Mônica Valentim
Terapeuta Comportamental Contextual

Um poema mindfulness: recortes do presente

Você sabia que os poemas são utilizados para se ensinar mindfulness?

Os Poemas são utilizados no ensino do mindfulness pois são um recorte dos pensamentos, sensações e emoções de um determinado momento em que o autor interagia com o mundo interno ou externo. Esses poemas trazem reflexões e ensinam a desenvolver curiosidade e abertura.

Hoje trazemos para vocês o poema escrito pela membro da Rede Conectta Andrea Goes:

“Dias Tristes

 

Eles existem.

Eles chegam.

Ficam por um tempo.

É preciso ter sabedoria para não enlouquecer.

É preciso ter coragem para suportar.

Doem

Os pensamentos buscam uma saída.

Um culpado.

Alguém para resolver?

Alguém para aliviar?

Não.

Dependo apenas das minhas emoções e intenções.

Uma solução?

Não, não há.

Um dia triste.

Encaro este momento e não fujo.

Percebo que todos passam, passaram ou passarão.

Não há como fugir.

Todos estamos certos desses dias.

Eu sinto.

Eles existem e não há nada que possa ser feito.

Que pecados cometemos para tamanha dor desses dias?

Não vou fugir, estou à espera de sua partida.

Olho para esses dias com respeito.

Sempre ocorre o aprendizado para quem está atento.

E não é sempre assim que você vai me encontrar.

Mas hoje, é um dia triste.”

 

Durante minha formação em Mindfulness, os professores sugeriram a escrita como um instrumento para explorar os sentimentos, as emoções, as ideias que estavam presentes. Observei que neste processo minhas dificuldades em expressar o que sentia através da escrita foram ficando a cada poema mais distante. Uma sensibilidade em descrever os momentos começou a surgir. Quando pego uma Folha, sinto o cheiro, passo a mão no papel e pego a caneta com delicadeza. Cada letra que vai surgindo, palavra e frases nem parece que saem da minha cabeça. Agora por exemplo, as palavras parecem sair do tubo da caneta. Surgem como o ar que respiro. As letras correm grudam no papel delicadamente, os dedos se movimentam como uma dança, tem som, ritmo e movimentos repetitivos.A força que coloco em cada palavra, percebo que muda de acordo com a emoção que está presente. NADA é estático.A criação de poemas em Mindfulness é única, surpreendente e genuína, como cada momento que vivemos.

 

Andréia Zeppelin Góes

11/11/15

Como começar a praticar Mindfulness e Compaixão

 

Essas são orientações básicas sobre como começar a praticar Mindfulness. Caso você tenha a possibilidade de fazer um programa de oito semanas e/ ou ter um professor, consideramos que é a situação ideal.

 

  1. Antes de qualquer coisa, você precisa estar consciente das suas motivações para praticar Mindfulness. Em geral, buscamos esse tipo de prática para aprender a conviver consigo mesmo (a) de maneira mais saudável – e não há nada de errado com isso. Porém, há o risco de que a prática seja utilizada como um meio de evitar as experiências difíceis, o que denominamos de esquiva experiencial, algo bastante diferente do que pretendemos com mindfulness. Mais sobre isso, você pode ler clicando aqui. Além disso, é interessante que possamos ter como intenção conviver de modo mais saudável e harmonioso com as outras pessoas também, de modo que o benefício do que fazemos não se esgote em nós mesmos. Partimos do princípio que todas as pessoas estão interconectadas de alguma maneira, não somos seres isolados, precisamos das outras pessoas para comer, se vestir, iluminar nossos lares e nosso trabalho, entre tantas outras coisas. Ao praticarmos algo para nos sentirmos bem, assim como as pessoas com as quais nos relacionamentos, nós ampliamos essa consciência, podendo assim melhorar nossos relacionamentos e desenvolver gratidão.
  2. Quando vemos mindfulness como uma prática, é importante saber que você pode praticar de diferentes modos: em pé, caminhando, deitado(a), mas sugerimos começar praticando na posição sentada. Você pode começar definindo um espaço da casa que seja relativamente tranquilo e que você goste de ficar. Praticar todos os dias irá criar uma âncora com esse lugar e fará com que o ato de se sentar ali já mude a fisiologia de seu corpo e a postura da sua mente.
  3. Inicie devagar. Não queira começar a praticar 30 minutos ao dia. Convide-se a se sentar sem expectativas e inicialmente tente não se apegar ao tempo. Inicie com 1 minuto, em seguida, progrida par a 5 minutos até que você chegue aos 20 minutos, respeitando o seu ritmo. Os estudos já mostram benefícios com prática diária de 20 minutos. Você pode colocar um despertador no celular para que não fique preocupado em checar o relógio durante a prática. Você também pode usar aplicativos para medir o tempo, por exemplo, o Inside Timer. Comece. Apenas comece. Vamos explicar logo abaixo o que fazer.
  4. Precauções. Caso você esteja em condições de saúde mental ou física agudizada provavelmente não deveria iniciar uma prática de mindfulness sozinho (até mesmo com o acompanhamento de um professor, essas práticas não são indicadas para serem iniciadas em fases agudas de qualquer condição médica). Se estiver em dúvida pergunte ao seu psicólogo ou médico sobre ter uma prática meditativa.
  5. Observe sua postura. Ao sentar para sua prática, escolha uma postura ativa na qual você possa estar confortável, atento e manter a prática até o final. Você pode praticar sentado no chão em almofadas comuns, em almofadas utilizadas por praticantes de meditação (zafus) ou talvez de modo mais simples, em uma cadeira confortável. Esteja atento a sua coluna, o ideal é que ela esteja ereta. Se estiver sentado em uma cadeira, certifique-se que seus dois pés estejam em contato com o chão. Seus olhos podem estar abertos ou semifechados, como for mais confortável para você. Você pode se convidar a sentir como está seu corpo, se há alguma tensão, dor e sensações físicas.
  6. Respire. Foque sua atenção totalmente na sua respiração. Não há necessidade de alterar o fluxo da respiração, não é preciso respirar mais rápido, mais devagar ou mais profundo. Apenas note o fluxo natural da sua respiração. É importante que você saiba que existe uma estreita relação entre a nossa respiração e as nossas emoções. Então, é provável que você note a sua respiração mais rápida ou mais curta nos momentos em que você estiver, por exemplo, mais ansioso. Em momentos de maior tranquilidade, você vai notar a sua respiração fluindo com mais facilidade. As duas situações descritas dizem respeito ao fluxo natural da sua respiração, NESTE MOMENTO. Nas práticas de mindfulness, não existe respiração “certa” ou “errada”. Você vai observar a sua respiração da maneira em que ela estiver ocorrendo. Você também pode notar a temperatura do ar na ponta do seu nariz quando o ar adentra em você e a temperatura que esse mesmo ar está ao sair de você. Se acaso você se sentir com mal-estar ao fazer isso, encerre a sua prática. Talvez seja importante você pedir auxílio a um instrutor de mindfulness. Algumas pessoas podem ficar muito desconfortáveis ao simplesmente tentar parar e prestar atenção na respiração. Se não for o caso, ok, prossiga com a prática. Autocuidado é a regra número 1 em mindfulness.
  7. Lidando com os pensamentos. Saiba que a natureza da sua mente são os pensamentos. Sua mente foi arquitetada para produzir pensamentos, é o que ela faz. Seu pulmão foi feito para respirar e não vai deixar de fazer isso porque você quer, vai? Nem a sua mente. O exercício aqui é toda vez que notar que está pensando apenas volte a sua atenção para a respiração, sem se apegar ou se engajar ao conteúdo do seu pensamento, apenas volte a sua atenção para a respiração. Práticas guiadas ajudam para que você comece a praticar as maneiras de lidar com os pensamentos (por exemplo, a prática dos pensamentos, mas essa é uma prática avançada).
  8. Busque adquirir o hábito. Neste caminho, você começa empolgado, mas os resultados do Mindfulness não são tão rápidos assim. É preciso constância nas práticas. O que fará com que você de fato adquira o hábito de praticar é perceber os resultados surgindo. Considere as práticas como um autocuidado, assim você pode reservar alguns minutos do dia para cuidar de si mesmo. Ter uma prática regular no mesmo horário pode ajudar na aquisição do hábito de meditar, porém não existe uma hora certa para praticar. Caso você tenha estipulado o horário da manhã para praticar e algum impedimento acontece, você pode tranquilamente praticar em outro horário. Lembre-se: qualquer hora é hora de praticar. Onde quer que você esteja, você pode praticar.
  9. Fortaleça a presença no dia a dia. Durante todo o seu dia sempre que se lembrar faça um chek-in em si mesmo. Convide-se a fazer uma pausa no que no que está fazendo, sentindo seu corpo sentado na cadeira do seu escritório, no banco do carro, no sofá de casa ou onde quer que você esteja. Você estava atento a atividade que estava fazendo? Se estiver trabalhando, estava atento para a tarefa? Se estiver cozinhando, estava atento na preparação da comida? INSPIRE e EXPIRE algumas vezes. Siga seus sentidos para assentar-se no momento presente: O que você VÊ a sua volta? O que você OUVE a sua volta? O que você OUVE dentro de você? O que você SENTE agora no seu corpo? Cheque se você precisa de alguma coisa como ir ao banheiro, tomar água, comer. Há alguma tensão? Qual o ritmo de seu coração? Que CHEIROS chegam até você? Que gosto tem na sua boca agora? INSPIRE e EXPIRE algumas vezes. E volte par a sua atividade diária.

 

Prática de respiração

Fique confortável.

Você pode iniciar sentando no chão em uma almofada ou em uma cadeira, posicionando suas mãos levemente sobre as pernas e encontrando uma posição confortável. Se você tem problemas de coluna, ou dores, talvez seja interessante evitar o chão e escolher uma cadeira confortável que ofereça suporte adequado para o seu corpo. Você pode manter as costas afastadas do encosto, permitindo uma postura ereta e também fácil para sustentar a prática até o final, se isso não trouxer muito incômodo. Aos poucos, convide-se a fechar os olhos e checar como você está se sentindo, permitindo experenciar o seu corpo nessa cadeira ou almofada aqui nesse momento. Observe em que áreas o seu corpo faz contato com chão. Note seus pés, as pernas, suas mãos sobre as pernas. Inspire e expire naturalmente, não há necessidade de mudar o ritmo da respiração. Acompanhe a entrada e saída do ar

Inspire e expire naturalmente, você não precisa controlar ou alterar o ritmo da respiração, apenas notar o ar que entra e sai dos seus pulmões. Inspire e deixe-se expirar. Inspire e deixe-se expirar. Permitindo que a respiração flua de dentro e para fora em seu ritmo natural – sem tensão ou esforço.

O objetivo aqui não é usar a respiração para relaxar, ou seja, não é necessário fazer respirações longas e profundas, apenas encontrar a respiração no corpo assim como ela se apresenta. Mindfulness não é uma prática de relaxamento, e sim de atenção.

Note sua mente

Você pode focar sua atenção nas sensações da respiração, onde quer que ela surja no corpo. Experiencie essas sensações momento a momento. Não há necessidade de pensar sobre a respiração, apenas sentir. Ao praticar para alguns instantes você pode notar que o movimento natural da mente é pensar, julgar, relembrar o passado e planejar o futuro, e cada vez que observar esse movimento, convide-se novamente a sentir a respiração. Esse convite pode feito com gentileza e amorosidade e pode acontecer quantas vezes forem necessárias durante a prática. O exercício é esse e isso é cultivar Mindfulness .

Observe agora a qualidade da respiração neste momento, é relaxada ou restrita? Longa ou curta? Sinta como o ar se move para dentro e para fora do nariz. Experiencie a sensação no abdome à medida que expande na inspiração e retrai na expiração.

Calmamente retorne ao seu dia.

Quando estiver pronto, pode abrir os olhos. Leve esta sensação de presença para outras atividades que ainda realizará.

 

Prática da bondade amorosa

Você pode complementar a sua prática de mindfulness do dia com uma PRÁTICA DE COMPAIXÃO. Diferente das práticas de mindfulness, onde objetivamos “apenas” observar o que está presente em nosso corpo, mente e emoções, nas práticas de compaixão, temos a intenção de gerar um afeto positivo e OBSERVAR como nos sentimos ao fazer isso.

Todas as orientações a respeito das práticas de mindfulness que descrevemos acima também se aplicam às práticas de compaixão.

Você pode começar a experienciar as práticas de compaixão pela prática da Bondade amorosa, que descreveremos abaixo.

 

Sente-se de maneira que o seu corpo entenda que você irá manter-se atento por um tempo. Sente-se com a coluna ereta. Você pode fechar os olhos ou deixá-los semiabertos, como for melhor para você.

Comece então a sentir seu corpo em contato com a cadeira, então o seu corpo como um todo. Sinta o ritmo natural da sua respiração. O ar entrando e saindo assim como é. Sinta o que for possível sentir, acompanhando o movimento do ar.

Agora, de maneira gentil, traga a sua mente para você mesmo, e você vai sentar com você mesmo e perceber como é fazer isso com você.

Note que você respira como todas as pessoas, você tem partes do corpo como todas as pessoas, tem tórax como a maioria das pessoas, barriga como a maioria das pessoas… tem anseios, desejos, amigos, família e ama coisas como todas as pessoas. Você tem um coração que bate como todas as pessoas e todos respiram. Veja como é para você notar essas coisas em comum. Apenas note, não existe certo ou errado. Veja se surgem pensamentos, sentimos, emoções ou sensações corporais enquanto você observa esses pontos em comum. Basta notar o que é possível, o que está ai.

Veja como é desejar bons votos a si: Que eu esteja bem, que eu tenha paz, a verdadeira paz, que eu tenha felicidade, a verdadeira felicidade.

Então você convida agora para sentar à sua frente uma pessoa que você gosta, não precisa ser alguém por quem tem um sentimento muito intenso.

Convide essa pessoa para sentar à sua frente. Note agora que vocês dois respiram, vocês dois tem partes do corpo, os dois tem tórax, barriga…os dois tem anseios, desejos, amigos, família e amam coisas. Os dois tem um coração e os dois respiram. Veja como é para você notar essas coisas em comum. Apenas note, não existe certo ou errado. Veja se surgem pensamentos, sentimos, emoções ou sensações corporais enquanto você observa esses pontos em comum. Basta notar o que é possível, o que está aí.

Deseje então bons votos para essa pessoa: que você esteja bem, que você encontre a verdadeira paz, que você encontre a verdadeira felicidade, que você tenha saúde.

Essa pessoa se vai.

Então de maneira gentil traga a sua mente uma pessoa que você sente que é neutra para si. Alguém que talvez você nem saiba o nome mas vê na sua rotina. Pode ser um aluno de outra sala. Um profissional de sua empresa de um setor distante, alguém que você não tenha um sentimento de gosto ou não gosto.

Convide essa pessoa para sentar à sua frente. Note agora que vocês dois respiram, vocês dois tem partes do corpo, os dois tem tórax, barriga…os dois tem anseios, desejos, amigos, família e amam coisas. Os dos tem um coração e os dois respiram. Veja como é para você notar essas coisas em comum. Apenas note não existe certo ou errado. Veja se surgem pensamentos, sentimos, emoções ou sensações corporais enquanto você observa esses pontos em comum. Basta notar o que é possível, o que está aí.

Deseje então bons votos para essa pessoa: que você esteja bem, que você encontre a verdadeira paz, que você encontre a verdadeira felicidade, que você tenha saúde.

Logo essa pessoa se vai.

Então, você agora convida para sentar com você alguém que você tenha um tipo de desafio. Também não precisa ser algo muito intenso.

Convide essa pessoa para sentar à sua frente. Note agora que vocês dois respiram, vocês dois tem partes do corpo, os dois tem tórax, barriga…os dois tem anseios, desejos, amigos, família e amam coisas. Os dos tem um coração e os dois respiram. Veja como é para você notar essas coisas em comum. Apenas note, não existe certo ou errado. Veja se surgem pensamentos, sentimos, emoções ou sensações corporais enquanto você observa esses pontos em comum. Basta notar o que é possível, o que está aí. Veja se é diferente o que surge com essa pessoa mais desafiadora para si.

Deseje então bons votos para essa pessoa: que você esteja bem, que você encontre a verdadeira paz, que você encontre a verdadeira felicidade, que você tenha saúde.

Então de maneira gentil ela se vai.

Então, você pode desejar esses votos para as pessoas do seu bairro, cidade, estado, país, continente, mundo e universo. E mais uma vez note o que surge sem modificar.

Vá voltando, ouvindo os sons da sala a sua volta. Sentindo o contato do seu corpo com a cadeira e então quando estiver confortável pode abrir os olhos.

 

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Por Erika Leonardo de Souza e Paula Teixeira

 

MINDFULNESS É BOM PARA O AMBIENTE DE TRABALHO?

Segundo o site da Society for Human Resource Management existe uma resposta SIM e outra NÃO para esta pergunta. Aqui vai um breve resumo do post original (em inglês).

 

Para Pandit Dasa e resposta é SIM, sabemos que mindfulness é bom para as empresas

Um em cada 3 americanos empregados relatam alto estresse no trabalho, de acordo com a Pesquisa de Trabalho e Bem-Estar da Associação Americana de Psicologia de 2016. O estresse no local de trabalho está custando às empresas americanas bilhões de dólares.
Muitas empresas, incluindo o Google, a JPMorgan Chase & Co., a General Mills Inc., o Bank of America, Aetna Inc. e a Intel Corp., estão usando a atenção plena para criar um ambiente de trabalho mais positivo e harmonioso – o que pode se traduzir em tangíveis benefícios para as empresas.
 
Depois de um acidente de esqui que custou uma fratura de pescoço , o CEO da Aetna, Mark Bertolini, incorporou yoga e meditação em sua rotina de bem-estar. Ele achou tão benéfico que ofereceu sessões para funcionários de sua empresa, e mais de 13 mil aderiram. Os participantes relataram, em média, uma redução de 28% nos níveis de estresse, uma melhoria de 20% na qualidade do sono e uma diminuição de 19% da dor. Os trabalhadores também ganharam uma média de 62 minutos de produtividade por semana, que a Aetna estima valer US$ 3.000 por empregado/ano.
 
De acordo com o artigo de dezembro de 2015 publicado na Harvard Business Review entitulado “Como a meditação beneficia os CEOs”, a atenção plena também pode aumentar a inteligência emocional. O CEO da Sattva, Archana Patchirajan e outros altos executivos, afirmaram que mindfulness os tornou mais pacientes e com melhor manejo sobre as emoções.
 
Há ampla pesquisa e testemunho pessoal que demostram como o treinamento de atenção plena pode beneficiar funcionários e equipes. Também, indústrias e empresas em áreas como finanças, seguros, educação, governo e TI, estão alavancando mindfulness para criar uma cultura mais positiva, com funcionários mais felizes e saudáveis.

Pandit Dasa is an inspirational speaker, meditation teacher and well-being expert who conducts stress management workshops at major corporations. He is the founder of Conscious Living LLC and author of Urban Monk (Conscious Living, 2013).

 
 

Para David Brendel a resposta é NÃO, não temos evidência de que mindfulness é bom para empresas

 
O crescimento extraordinário do mindfulness em settings corporativos nos últimos anos é perturbador e injustificado, dada a escassez de evidências claras e convincentes de que tais programas impulsionam o crescimento do negócio. De fato, em muitos casos, a aplicação de estratégias de atenção plena no trabalho pode ser contraproducente, mesmo quando aplicadas por especialistas credenciados.
 
O treinamento de atenção plena nos locais de trabalho apresenta evidências preliminares de benefícios, na melhor das hipóteses. Um estudo sugeriu que o aprendizado de exercícios de meditação de atenção plena “pode gerar mudanças positivas nas práticas virtuais de multitarefa”. Porém, como a maioria dos estudos deste tipo, não há um exame, nem confirmação, de quaisquer benefícios resultantes no mundo real. Há também dados empíricos escassos que indicam que as práticas de atenção plena melhoram outras habilidades essenciais de negócios, como o raciocínio crítico.
 
O entusiasmo injustificado por mindfulness elevou a prática, em algumas configurações, para status de culto, o que cria um risco de pensamento grupal e conformidade social. Eu encontrei várias situações corporativas nas quais os líderes da equipe facilitaram reuniões obrigatórias que começaram com sessões de meditação. Alguns participantes me disseram que se sentiram coagidos a participar, com medo de julgamento negativo se não se comportassem como “parte da equipe”. Se oferecidos em locais de trabalho, as experiências de atenção plena sempre devem ser voluntárias e devemos respeitar as preferências pessoais.
 
Mindfulness não deve ser visto somente como um “mindset de performance” ou algo para reduzir o estresse. Os líderes de empresas devem pensar além da tendência comercial e adotar uma abordagem multifacetada para reduzir o estresse dos funcionários, promovendo culturas de trabalho positivas com forte conexão social e considerando horas de trabalho flexíveis, assim como mais tempo de férias, programas aprimorados de assistência aos funcionários, treinamento gerencial e até coaching executivo.
 
Devemos considerar mindfulness como um dos componentes possíveis dentro de um modelo abrangente de gerenciamento de estresse e bem-estar. Uma visão equilibrada dos riscos, benefícios e complexidades da atenção plena pode nos capacitar mplementá-lo de maneira cuidadosa, focada e efetiva.

David Brendel is a psychiatrist and the founder and director of Leading Minds Executive Coaching LLC in Boston. He is also a partner at Camden Consulting Group and co-founder of Strategy of Mind LLC.                    

 
Traduzido por Tiago Tatton

A relação entre Mindfulness no Budismo e na Ciência

Já faz um tempo que me dedico a este assunto, tendo publicado internet afora textos sobre o tema. É um tema delicado, que merece uma apreciação longa. Contudo, farei um esforço para ser sucinto.

As pessoas, em geral, associam mindfulness com meditação. Esta não é uma associação indevida, mas deve ser feita com cautela. Em outro texto aqui do Conectta a Érika já falou sobre como mindfulness pode ser entendido enquanto parte da própria condição humana, e não um elemento ou prática necessariamente religiosa ou ligada a alguma cultura.

Acontece que o termo mindfulness ficou muito popular devido ao sucesso de programas seculares (não-religiosos) como o Mindfulness Based Stress Reduction (MBSR), desenvolvido por Jon Kabat-Zinn, na Universidade de Massachussets, nos USA. Este é um programa de medicina comportamental voltado para a redução de estresse, tendo seu início nos anos 80. Portanto, existe há mais de 3 décadas. Desde então, existem diversos programas similares, com propósitos semelhantes.

Apesar de seculares, estes programas (como o MBSR) foram desenvolvidos com inspiração em práticas que podemos denominar “contemplativas”, em particular a Yoga e o Zen Budismo. Nestas Intervenções Baseadas em Mindfulnes (MBIs) temos uma adaptação de práticas culturalmente denominadas de “espirituais” para um contexto de saúde. Deste modo, utliza-se (utiliza-se) uma linguagem explicitamente menos religiosa, e mais “médica” ou “psicológica”. As práticas ensinadas nestes programas são muito similares, na forma, àquelas ensinadas em contexto religioso, tais como meditação sentada e silenciosa (ou caminhando) e movimentos oriundos da Yoga. Estes “exercícios” são ensinados nas MBIs sem vinculação ritualística, metafísica ou ética com as tradições de onde foram originalmente retiradas. Por um lado isto é uma vantagem, pois universaliza a linguagem e assenta as práticas em uma ética humana-secular. Por outro, pode apresentar riscos de distorções e reducionismos. O maior risco, no entanto, é o esvaziamento ético, onde as práticas são apresentadas desvinculadas de um cabedal de valores humanos. Neste sentido, mindfulness pode ser ensinado como mero treino atencional ou de flexibilidade psicológica. A crítica recai, sobretudo, quando pensamos que mindfulness pode ser utilizado para treinar a eficiência de um atirador de elite ou para estabilizar a atenção de um CEO tirano que almeja explorar com maior eficiência os funcionários de sua empresa.

O mindfulness, apesar de popularmente associado a estas MBIs, tem uma trajetória curiosa e complexa. Desde o século XIX, o termo mindfulness esteve associado com a tradução para a língua inglesa de práticas budistas diversas, tais como shamata e zazen, cada qual correspondente a um tipo de tradição budista. Essas práticas, que acontecem dentro de um contexto religioso, estão geralmente associadas ao exercício de estabilização da atenção, e não são MBIs. São práticas budistas que acontecem dentro de um contexto doutrinário e ético, independente da tradição budista. Toda e qualquer prática budista, da mais simples até a mais complexa, somente existe dentro de um amplo universo que envolve uma metafísica e uma dimensão soteriológica (de salvação – p.ex. nirvana, samsara, iluminação, superar o ciclo de renascimentos, purificar o carma, etc). Nos programas de saúde, como o MBSR e as demais MBIs, os objetivos são “menores”, restringindo-se à promoção de saúde, ou à condições específicas (como é o caso do MBCT, desenvolvido para o tratamento da depressão).

Dentro do universo científico da prática de mindfulness há também duas outras vertentes, para além das MBIs. Uma deles é o mindfulness dentro das psicoterapias contextuais, que podem ser compreendidas como parentes próximos das psicoterapias cognitivo-comportamentais. Diferente das MBIs que acontecem, em geral, em grupos e com duração aproximada da (de) 8 semanas, nas psicoterapias mindfulness pode ser treinado individualmente. Na maioria delas, como na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), na Terapia Analítica Funcional (FAP) e na Terapia Metacognitiva, mindfulness é entendido como um processo psicológico, e não como uma prática meditativa. A prática do tipo meditativa é compreendida como um tipo de exercício (dentre muitos outros) que pode facilitar processos de mindfulness. Mas a Terapia Dialética Comportamental (DBT), que faz parte da mesma família de psicoterapias contextuais, entende mindfulness tanto como prática de meditação quanto processo psicológico. Assim, a DBT, como as MBIs, inserem mindfulness neste universo de dupla-pertença – espiritual e científico.

Esse hibridismo espiritual/científico pode gerar alguma confusão, tanto para o “professor” ou “terapeuta” quanto para os participantes, já que pode não ficar claro o assentamento ético, linguístico e conceitual dos procedimentos adotados. Esse é um risco assumido tanto pelas MBIs quanto pela DBT, e tem gerado inúmeros debates na literatura especializada. O que está sendo ensinado? Budismo? Treino psicológico/comportamental? Ambas as coisas? Seria o “terapeuta” uma espécie de monge científico? Caso afirmativo é importante assegurar-se das variáveis implicadas no processo de melhora dos participantes, já que valores espirituais podem afetar (em geral, positivamente) o ganho de benefícios advindos do mindfulness. Mas isso também pode gerar imposturas e abrir espaço para que “gurus” não-religiosos e coachs se aproveitem dessa “licença new-age” que emergiu com o movimento mindfulness. É preciso ter critério e observar com parcimônia o processo de formação desses “terapeutas” de mindfulness. São monges? São cientistas? Há coerência no que ensinam? Todas as manifestações de mindfulness são legítimas, mas é necessário ter clareza acerca do que se faz e do que é oferecido – em termos de promessas – para as pessoas que procuram este tipo de treinamento (ou tratamento). Será que quando se busca um mindfulness espiritual não seria adequado que as pessoas sejam encaminhadas para os monges, simplesmente? Penso que sim.

Por fim, há um tipo de mindfulness totalmente assentado na tradição científica, sem qualquer tipo de referência ao Budismo ou às tradições contemplativas. Quem trabalha com essa versão 100% secular do mindfulness é a psicóloga norte-americana Ellen Langer. Para Langer, mindfulness é um processo de abertura atencional que contrabalança nosso estado de devaneio ou desatenção. Quando Langer começou a escrever sobre mindfulness, Jon Kabat-Zinn estava escrevendo sobre o MBSR. Langer assentada na tradição psicológica, ocidental, e Kabat-Zinn na dupla-pertença, médica e contemplativa.

Por fim, é importante salientar essa existência de uma dimensão puramente psicológica, ocidental, de mindfulness, que se faz notar nas tradições científicas de Langer e da ciência contextual, como em Hayes (ACT). Há também uma dimensão puramente religiosa, tal qual mindfulness é ensinado no Budismo, independente da tradição. Por fim há essa região mais nebulosa, de interseção entre ciência e religião, representada pelas MBIs e pela DBT. Quando eu utilizo “nebulosa” quero dizer complexa – e até mesmo – arriscada. Isso porque há certo esvaziamento de uma área em outra (científica na religiosa, e vice-e-versa), e o balanço entre o que é religioso e o que é científico fica, quase sempre, a cargo da postura do “instrutor” ou do “terapeuta”. Por isso é comum vermos alguns colegas que trabalham com mindfulness circulando através de conceitos, termos e condutas tanto religiosas quanto técnicas (da Psicologia ou da Medicina).

Novamente, os territórios de maior segurança são aqueles onde há absoluta clareza do que se está fazendo e entregando para a população. Por isso, é mais fácil avaliarmos a coerência de mindfulness quando estamos nos pólos, ou seja, na dimensão religiosa ou científica. Quando um monge tibetano está ensinando shamata/zazen ele está ensinando shamata/zazen, nada mais. Essa é a dimensão religiosa de mindfulness. Quando um cientista cognitivo está utilizando Langer para testar uma hipótese sobre tomada de decisão em um experimento, ele não está meditando. Essa é uma dimensão científica de mindfulness. Quando um terapeuta contextual está ensinando ao seu paciente uma técnica de desfusão cognitiva através de metáforas, ele está utilizando mindfulness e – assim como Langer – está dentro de um contexto puramente científico (psicológico). O terapeuta contextual também não está ensinando meditação, mas está trabalhando com mindfulness. Agora, quando um instrutor de MBSR está ensinando alguém a prestar atenção na respiração, sentado no chão, com as pernas cruzadas, e com um sino de meditação na mão, ele está neste território da dupla-pertença. Neste lugar, a clareza pode estar obscurecida; ele está ensinando shamata/zazen? Algo parecido com shamata/zazen? É shamata/zazen, mas não é? Não, não é shamata/zazen?

Daí desdobram outras questões: quem pode ensinar shamata/zazen? É necessária a autorização de um professor mais experiente para ensinar shamata/zazen? É necessário (re)incorporar a ética budista? Seria uma prática espiritual?

O mais importante é que todas as manifestações de mindfulness são legítimas, até mesmo os hibridismos espirituais/científicos, desde que tenhamos clareza. Não percamos a lucidez. E que o movimento mindfulness siga pleno, podendo levar saúde e discernimento, doravante seus limites.

Sobre o autor

Tiago Tatton

Psicólogo clínico, investigador do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e advanced teacher training em MBSR e MBCT pela UCSD (Univ. California in San Diego).

 

É instrutor de mindfulness? Terapeuta de terceira geração? Quer fazer parte da Rede Conectta? Leia sobre nós e como funcionamos e Escreva para nós!

O poder da admiração (awe): bom para nossas mentes, corpos e conexões sociais.

Você talvez conheça a emoção que surge no centro do seu peito ao olhar atento e curioso para um imenso céu vastamente estrelado ou ainda, as sensações que acontecem ao presenciar um abraço sincero de profundo amor em um aeroporto durante uma chegada ou uma partida.

 

Essa emoção que provoca  sensações que invadem nosso corpo, expande nosso peito e arranca de nós suspiros genuínos tem sido estudada pela ciência e em inglês se chama AWE. No português não temos uma palavra tão exata para tradução direta e que descreva exatamente do que o AWE se trata, mas seria algo como admiração sublime ou reverência.

 

Nem mesmo a ciência consegue ainda entender bem essa complexa emoção. Awe é aquela emoção que nasce enquanto contemplamos em uma caminhada uma paisagem majestosa, admiramos uma incrível obra de arte ou assistimos ao nascimento de uma criança. Experiências como essas nos enchem de uma sensação de profunda conexão e desafiam nossa compreensão do mundo e do nosso lugar nele.

 

As pesquisas sugerem que a ADMIRAÇÃO aumenta o nosso bem-estar e nos leva a ser mais altruísta e generosos, mas ainda não está claro por que isso acontece.

 

Esse campo de pesquisa ainda é incipiente, porém os pesquisadores da Universidade da Califórnia, Berkeley, referem que as pesquisas têm apontado que a admiração/reverência foi essencial para propósitos evolutivos da espécie humana, e ainda o é.

 

Por que sentimos ADMIRAÇÃO SUBLIME?

De acordo com Dacher Keltner, pesquisador do Laboratório de Emoções da Berckley, existem importantes razões evolutivas para o AWE: é bom para nossas mentes, corpos e conexões sociais.

Sentir reverência e admiração parece ajudar as pessoas a terem um olhar menos autocentrado, se concentrarem menos em si  e ampliar o olhar para além do que está apenas relacionado a suas próprias necessidades – olhando também na direção de outras pessoas e em direção ao mundo.

Sentir admiração parece fazer com que as pessoas naturalmente tenham mais engajamento social. (1)

 

As direções das pesquisas:

Diversos estudos têm sido conduzidos internacionalmente liderados pela Universidade de Berckley e nós vamos comentar alguns experimentos que levaram a relevantes informações sobre a admiração sublime.

Primeiro experimento: sentindo que somos um pequeno pedaço desse mundo

Uma dessas pesquisas estudou indivíduos da China e dos Estados Unidos em diversas situações para avaliar melhor a admiração sublime e seus efeitos, os participantes foram convidados a descrever em seus diários se ao longo do dia:

  1. Tivessem uma experiência de admiração sublime;
  2. Tivessem uma experiência de alegria, caso não tivessem sentido a emoção de admiração
  3. Não tivessem sentido nenhuma emoção no dia mas gostariam de compartilhar algum fato

Ainda, no diário, os participantes avaliavam se tinham sentido emoções positivas e negativas- como esperança, gratidão, inveja, constrangimento.

Após essas notas os mesmos avaliavam seu “tamanho” em uma escala na qual se escolhe,entre uma série de círculos, o que mais se aproxime da seu senso de tamanho pessoal (essa escala já foi validada e não demonstra correlação o tamanho do corpo).

A pesquisadora Yang Bai diz que o resultado não surpreendeu pois “Quando sinto a admiração, sinto que sou apenas um pequeno pedaço deste grande mundo”, refere. “É uma espécie de sentido metafórico do eu que está diminuindo durante a admiração”.

Os participantes chineses foram mais afetados pelo awe. Seus “tamanhos referidos” foram significativamente menores que dos americanos quando experimentam níveis similares de admiração, ou seja, um mesmo nível de admiração fazia com que os chineses se classificassem menores do que os americanos.

Segundo experimento: O paradoxo do “senso menor de si mesmo”, quando me sinto menor de maneira individual meu mundo aumenta

Os pesquisadores também realizaram um experimento de laboratório com chineses e americanos que foram escolhidos de maneira randomizada a assistirem um filme curto e inspirador de natureza e outra parte a um vídeo de humor.

Foram feitas medidas ante e depois do vídeo que verificaram o “auto-tamanho”, emoções positivas e negativas e status social percebido. Os resultados mostraram que os vídeos de admiração provocaram consistentemente um menor senso de si mesmo.

Ainda não se sabe porque a admiração guia a uma diminuição do senso pessoal.

“Enquanto nos sentimos pequenos em um momento de admiração, estamos nos sentindo conectados a mais pessoas ou nos sentindo mais próximos dos outros. Essa é a finalidade do awe, ou pelo menos um dos seus propósitos. ” -Yang Bai, Universidade da Califórnia, Berkeley.

Acredita-se que admiração sublime é uma parte fundamental do ser humano, tornando nossos corpos e mentes mais receptivos a novas informações, novas experiências e ao significado mais profundo da vida.

Terceiro experimento: a admiração como meio de conexão social

Possivelmente o AWE nos mantém conectados e para investigar esse aspecto o grupo de pesquisa novamente selecionou de maneira novamente aleatória indivíduos americanos e chineses para assistirem um vídeo inspirador ou um vídeo humorístico.

Dessa vez os participantes foram instruídos a desenhar uma imagem de seu círculo social atual, usando círculos para representar pessoas (incluindo elas mesmas) e distâncias entre círculos para representar o quão perto eles se sentiam de cada membro de sua rede social. Eles também preencheram um questionário sobre suas emoções.

Esse experimento verificou que as pessoas que assistiram ao filme inspirador desenhou círculos menores como representação pessoal de si e os círculos que representavam a sua rede de pessoas próximas estavam mais perto do círculo que representava a si mesma.

Quarto experimento: identidade social em detrimento da identidade individual

A pesquisadora Michelle Shiota pediu em seu estudo (3) para indivíduos preencher o espaço em branco da frase: “EU SOU ____”. Cada pessoa fez isso por 20 vezes. Porém metade dos participantes foram orientados a fazer isso olhando para réplica impressionante de um esqueleto de T. rex no Museu de Paleontologia da UC Berkeley. A outra metade foi orientada a olhar para baixo de um corredor.

Aqueles que olhavam o dinossauro foram mais propensos a preencher a lacuna com termos mais coletivistas – como um membro de uma cultura, uma espécie, uma universidade, uma causa moral. O experimento chegou a conclusão que a admiração também cria uma identidade  social em detrimento da identidade individual.

Quinto Experimento: a diferença entre se sentir menor guiado pela culpa/vergonha ou pela admiração/reverência

Os participantes foram separados em grupos randomizados e convidados uma parte a lembrar e escrever sobre situações em que sentiram reverência, outra parte foi solicitado que escrevessem sobre um evento que se sentiram envergonhados ou culpados e um grupo controle escreveu sobre uma experiência pessoal neutra.

Antes e depois de escreverem sobre esses temas os participantes preencheram as escalas de auto referencia de tamanho pessoal, questionários de auto-estima, status social e sensação de poder pessoal.

Os participantes dos grupos que escreveram sobre eventos vergonhosos e sobre momentos de admiração nos questionários pós intervenção se referiram com menor tamanho de si comparados ao grupo que escreveu sobre um evento neutro. Porém, os participantes que escreveram sobre um evento vergonhoso além de se referirem menores após o experimento apresentaram menor auto-estima, menor estatus social e menos sensação de poder pessoal enquanto que os que se referiram menores após escreverem sobre a admiração não tiveram alteração nessas escalas.

O que demonstrou, novamente, que a admiração levou a uma sensação de um “eu pessoal” menor, assim como a culpa e a vergonha, porém esse se sentir menor é diferente.

“Nós podemos nos sentir pequenos em resposta a diferentes tipos de emoções – por exemplo, quando você se sente envergonhado, você também se sentirá pequeno. No entanto, a pequenez provocada pela admiração é única”, diz Bai.

Então precisamos estar em contato com paisagens majestosas?

A admiração, então, é o sentimento de estar na presença de algo vasto que transcende sua compreensão do mundo.

A boa notícia é que não é apenas na presença de uma estonteante noite enluarada em uma praia paradisíaca ou ao presenciar a aurora boreal que você pode sentir admiração sublime.

Você pode exercitar seu olhar atento e curioso de admiração sublime para eventos comuns. Lembre-se que a base da admiração sublime é mindfulness, já que é necessário estar presente para que se possa ter essa emoção.  

Tente procurar a admiração nas ações das pessoas a sua volta e paisagens comuns de seu dia a dia. Experimente as vantagens que essa emoção pode trazer para sua vida e para os demais que estão a sua volta. Passar a olhar ao seu redor com atenção plena e procurar o sublime a sua volta será uma grande exercício.

Para terminar esse texto convido você a ligar o som e colocar esse vídeo em tela grande.

https://www.youtube.com/watch?v=N6-2fVsFV8E

 

Deixo ainda, uma prática publicada na revista online “Mindful”  para praticar a admiração sublime:

 

Caminhada Reverencial (Awe Walk)

https://youtu.be/TKterwanr1Y

 

“Começamos uma Awe Walk enquanto fazemos todos os exercícios contemplativos, com a respiração.

 

  1. Inspire profundamente. Conte até seis enquanto você expira e novamente seis enquanto você inspira. Sinta o movimento do ar através de suas narinas e ouça o som da sua respiração. Retorne a essa respiração diversas vezes ao longo da caminhada.

 

  1. Sinta os pés no chão e escute os sons circundantes. Volte para a respiração. Conte até seis enquanto você inspira e seis enquanto expira.

 

  1. Mude sua consciência agora para que você se torne aberto ao que está ao seu redor, a coisas que são vastas, inesperadas, coisas que surpreendem e deleitam. Respire fundo. Conte até seis enquanto você expira e seis enquanto você inspira.

 

  1. Deixe a sua atenção aberta para explorar o que lhe inspira admiração. Sua atenção pode apreciar vastos espaços, os sons e pontos de vista dentro deles. Você pode mudar para pequenos padrões, por exemplo, uma planta no chão ou as veias nas folhas ou um conjunto de cogumelos minúsculos.

 

  1. Volte sua atenção para a respiração. Conte até seis enquanto você expira e seis enquanto você inspira. Saindo dessas experiências de admiração, muitas vezes sentimos um sentimento de maravilha.

 

A coisa impressionante, uma vez que você realmente começa a pensar sobre admiração se tentar praticá-la em sua vida, de tão onipresente que essa emoção é. Ao passar do dia, tome nota dos momentos que lhe trazem maravilhas, que lhe dão arrepios: estas são suas oportunidades de admiração.

A Meditação Guided Awe Walk é apresentada por Mindful em colaboração com o Greater Good Science Center, a Universidade de São Francisco e o Sierra Club Outdoors.

Produzido por: Heather Hurlock, Editor da Mindful.org

Narrado por: Dacher Keltner, Professor de Psicologia, UC Berkeley, Diretor da Faculdade, Greater Good Science Center

Vídeo, fotografia e edição por: José Luis Aranda Nucamendi da Universidade de São Francisco

Produção de vídeo de: Lisa Beth Anderson da Universidade de São Francisco

Agradecimentos especiais a: Jason Marsh, Stephany Tlalka, Christel LeBlanc, Melinda Moses, Eric Hurlock, Ernie Tokay e todas as pessoas doentes em Muir Woods que nos ajudaram ao longo das trilhas” Essa prática foi originalmente publicado em Mindful.  

Desejo que encontre momentos de admiração e vivencie-os com plenitude; veja até onde eles o guiam e como o fazem sentir. Nosso mundo atual precisa desse sentimento de pertencimento frente a magnitude do mundo e do todo.

 

Paula Teixeira é médica. Instrutora profissional de Mindful Eating  (MBEAT). MEMBRO do Conectta rede de mindfulness e compaixão.

1)Bai, Y., Maruskin, L. A., Chen, S., Gordon, A. M., Stellar, J. E., McNeil, G. D., . . . Keltner, D. (2017). Awe, the diminished self, and collective engagement: Universals and cultural variations in the small self. Journal of Personality and Social Psychology, 113(2), 185-209.

http://dx.doi.org/10.1037/pspa0000087

 

2)Rudd, M., Vohs, K. D., & Aaker, J. (2012). Awe expands people’s perception of time, alters decision making, and enhances well-being. Psychological Science, 23(10), 1130-1136.

3) Shiota, Michelle N., Dacher Keltner, and Amanda Mossman. “The nature of awe: Elicitors, appraisals, and effects on self-concept.” Cognition and emotion 21.5 (2007): 944-963.

Mindfulness e Envelhecimento saudável. Os benefícios das práticas de Mindfulness na Construção da Reserva Cognitiva

 

 

Mindfulness e Treinamento de Habilidade Cognitiva

Mindfulness, traduzido como atenção plena, caracteriza um estado mental de atenção proposital no momento presente, sem julgamento ao desdobramento da experiência, momento a momento (Kabat-Zinn 2003).

As práticas de Mindfulness acrescentam uma perspectiva importante em relação ao envelhecimento saudável. Os modelos psicológicos contemporâneos segundo Malinowski (2012, 2013) se caracterizam nos seguintes componentes:

1) Fatores motivacionais, incluindo a intenção,

2) treinamento mental,

3) processos mentais fundamentais,

4) a posição mental atitudinal e

5) os resultados em termos físico e bem-estar mental e mudanças comportamentais.

O que acontece quando se pratica mindfulness que pode acrescentar uma perspectiva importante em relação ao envelhecimento cognitivo saudável?

Uma prática de mindfulness consiste em prestarmos atenção de maneira intencional em um foco objetivo, por exemplo a respiração, todas as vezes que o praticante notar que se distraiu e não está mais prestando atenção naquele foco de maneira gentil ele retorna a se focar, o que aqui no exemplo seria a respiração.

O fato é que durante as práticas de mindfulness,  em que são usadas o que chamamos de âncora atencional (no caso do exemplo a respiração), uma rede de alerta se estabelece para sustentar o estado de atenção, e as redes de controle executivo que monitoram e controlam os nossos estados mentais são ativadas para reconhecer a distração mental. Em seguida, uma outra rede chamada orientadora nota a distração e redireciona o foco de atenção para o objeto da meditação, novamente no exemplo, o foco na respiração.

É sabido que essas funções atencionais (rede de alerta, redes de controle  executivo e rede orientadora) estão ligadas ao declínio cognitivo relacionado  à idade. Nesse sentido, observa-se um crescente interesse pela questão de saber se  as práticas de Mindfulness, já que se utilizam dessas mesmas funções, podem  então, diminuir a velocidade ou mesmo impedir esse declínio cognitivo .

Para o entendimento dessa possível contribuição é preciso também entender o conceito de reserva cognitiva. A hipótese da reserva cognitiva refere-se à capacidade do cérebro de armazenar por períodos prolongados as habilidades que foram adquiridas ao longo da vida e de resistir aos prejuízos de um quadro demencial, evitando o surgimento de sintomas clínicos significativos no início das doenças neurodegenerativas. Sabe-se que as doenças neurodegenerativas são progressivas, no entanto, a reserva cognitiva permite que o progresso da doença seja bem mais lento do que o habitual.

Diversas variáveis ligadas ao estilo de vida podem levar a um melhor desempenho cognitivo em idade avançada mesmo na presença de patologia cerebral neurodegenerativa. Somado a isso, a ativação repetida dessas redes durante a prática de mindfulness pode fortalecer seu funcionamento e, consequentemente, melhorar as habilidades de atenção. Essas funções atencionais estão, além disso, interligadas com a memória de trabalho, a capacidade de reter e manipular informações relevantes para o objetivo sem distração (Jha et al., 2010; Mrazek et al., 2013).

Essas melhorias no desempenho cognitivo parecem bastante notáveis quando comparadas aos efeitos típicos do treinamento cognitivo. Quando uma pessoa começa a se envolver no treinamento de Mindfulness e estabelecer e manter o foco da atenção, exigirá esforço e envolverá as diferentes redes de atenção (Malinowski, 2012, 2013). Vários estudos indicam que com as práticas ocorre o aumento da clareza da percepção e diminuição da reatividade automatizada (Cahn et al, 2010). Pesquisas mais extensas mostram que o envolvimento nas práticas de Mindfulness resultam em um melhor desempenho cognitivo e está associado a mudanças nas atividades cerebrais ( Chiesa et al, 2011).

 

Envelhecimento, Estilo de Vida e Reserva Cognitiva.

Estudos sobre os efeitos de vários programas de treinamento cognitivo ou estimulação cognitiva que foram desenvolvidos para idosos saudáveis e com Comprometimento Cognitivo Leve (CCL), apresentam uma melhora do funcionamento cognitivo e no desempenho das atividades da vida diária (Reijnders et al 2013). Já os estudos com as práticas de Mindfulness demonstraram que este produz em adultos mais velhos uma série de efeitos positivos, inclusive no desempenho cognitivo, um melhor  estado atencional que consequentemente envolve a uma melhor memória, além de fazer com que o indivíduo esteja mais ciente de seus pensamentos, sentimentos e sensações físicas havendo essa flexibilidade metacognitiva.

Há evidências que as funções cognitivas são preservadas devido a dois processos diferentes (Steffnener e Stern, 2012): Reserva Neural e Compensação Neural. A Reserva Neural é o processo de sustentar o desempenho cognitivo devido a maior eficiência, capacidade, ou flexibilidade da rede. A compensação neural refere-se ao processo de recrutamento de redes e estruturas alternativas do cérebro que normalmente não estão envolvidas em determinada função. Ou seja, existe um processo compensatório que pode ser ativado quando as redes neurais primárias não são mais capazes de desempenhar adequadamente o desempenho bem sucedido das tarefas (Reuters-Lorenz, 2002).

As evidências também apontam que os fatores de estilo de vida podem contribuir para a reserva cognitiva. Isso sugere que as práticas de mindfulness podem realmente contribuir para aumentar a capacidade da reserva cognitiva, mesmo em indivíduos mais velhos e que tenham Comprometimento Cognitivo Leve (Larouche et al, 2015). Se acrescenta também os efeitos de equilíbrio emocional e redução do estresse que são um dos benefícios das práticas de mindfulness, que podem influenciar positivamente, melhorando o funcionamento do sistema nervoso, das funções imunológicas (Larouche et al 2015), e de forma indireta aumentar a proteção neural.

Lazar e outros (2005), em um estudo após intervenção de um programa de 8 semanas (MBSR), identificou que as mudanças na estrutura do cérebro podem estar por trás desses benefícios comprovados, e que as pessoas não se sentiam melhor só porque alcançavam o relaxamento. Através de ressonância magnética da estrutura cerebral realizada duas semanas antes do programa  e após as oito semanas, os autores descobriram que foi encontrado um aumento de densidades da matéria cinzenta do hipocampo, uma região importante para a aprendizagem e a memória. Além de serem estruturas associadas com a autoconsciência e compaixão.

Esses estudos transversais fornecem uma indicação de que as práticas de mindfulness podem proteger contra o declínio cognitivo. E o desempenho cognitivo preservado e a estrutura neural preservada podem ser um indicador de reserva neural. Embora existam poucas pesquisas que relacionem reserva cognitiva e as práticas de Mindfulness, os estudos já realizados mostram resultados promissores que incentivam a continuidade da investigação.

Uma ajuda extra para os Cuidadores

Um Estudo sobre Mindfulness para cuidadores mostrou que receber o treinamento de mindfulness foi útil tanto para os cuidadores quanto para as pessoas em fase precoce das doenças demeciais. No estudo o desenvolvimento da atenção plena ajudou a evitar a depressão, melhorou o sono e melhorou a qualidade de vida.

De acordo com os pesquisadores doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer são difíceis sobretudo para familiares próximos que são prestadores de cuidados. Quando cuidador e paciente passaram por uma intervenção de mindfulness juntos, o estudo demonstrou que ambos desenvolviam novas formas de se comunicar entre si.

Como esses pacientes apresentam perda de memória e mudança comportamental, normalmente cuidadores têm dificuldade para se comunicar de forma plena e centrada nos aspectos reais e não projetados de sua relação com o doente. O estudo demonstrou ainda que com o aumento da compaixão dos cuidadores os mesmos foram mais capazes de se comunicar, reconhecendo suas emoções e os gatilhos que levavam a reações não desejadas com seus entes queridos.

Impactos positivos do estudo sobre o Mindfulness X Cuidadores

  • Diminuição do nível de estresse, do hormônio cortisol e e da pressão arterial
  • Melhora do sono
  • Redução da dor crônica e irritações gastrointestinais.
  • Ajudou a gerenciar a depressão, ansiedade, dependência e quaisquer outras condições mentais previas dos participantes

As práticas de Mindfulness seriam então, uma importante escolha na promoção da saúde mental e emocional no envelhecimento, considerando que o estilo de vida é um fator relacionado à Reserva Cognitiva e também um fator de proteção.

 

Autor: Marcia Paviani

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